Archive for the ‘Parmênides’ Category

Platão – Dialética – 1ª parte

27/02/2009

Dialética Platônica – 1a parte

Para conhecer Platão é indispensável o estudo da genesis de sua teoria das idéias. Os filósofos anteriores haviam chegado, em relação com o problema da ciência, a uma série de posições antinômicas. Para Parmênides o real se identifica com o ser único e imóvel, acessível só pela razão. Para Heráclito, ao contrário, a realidade se identifica com o devir múltiplo e mutável. A conseqüência desta posição é clara: se tudo no mundo é puro devir é impossível o conhecimento certo. Protágoras tira da conseqüência destas posições a relatividade total do conhecimento humano. Finalmente Sócrates, ao contemplar a difícil situação que havia chegado a filosofia no estudo do objeto se orienta ao sujeito e descobre os conceitos das coisas. Este era o estado do problema ao chegar a Platão. Deste apanhado caótico de doutrinas devia surgir sua teoria das idéias. Platão parte para ela com o princípio que a ciência verdadeira é possível. Mas a ciência não pode ter por objeto os seres mutantes do mundo como disse Heráclito que fluem perpetuamente, mas algo que seja imutável e eterno, pois só do imutável e eterno, como disse Parmênides, pode haver conhecimento certo.

Logo Platão conclui que por cima da ordem da realidade sensível deve existir uma realidade inteligível eternamente igual a si mesma, a qual remontamos com os conceitos, como havia descoberto Sócrates. Desta maneira Platão unificou as teorias de seus antecessores. Heráclito tinha razão ao afirmar que tudo em nosso mundo sensível é devir, mas se enganava ao negar a existência do verdadeiro ser. Parmênides também tinha razão ao proclamar a existência do ser, mas se equivocava ao fazê-lo único e ao negar a realidade do Universo. Finalmente Sócrates tinha razão ao buscar a ciência nos conceitos e definições dos objetos, mas devia ter estendido sua investigação ao mundo metafísico e estabelecido, como fundamento de seus conceitos, uma essência objetiva transcendente: a idéia.

Platão – introdução à sua filosofia

24/02/2009

Introdução a filosofia de Platão

Platão tratou de quase todos os temas da filosofia. Mas há uma Filosofia de Platão?

Se por filosofia se entende um conjunto harmônico de teses ordenadas e coerentes então a filosofia de Platão não existe. O pensamento de Platão está sempre caminhando. Nada mais longe de sua mentalidade que a ordem e a coerência. Entretanto em um sentido mais amplo pode se falar de uma filosofia platônica se por filosofia se entende uma busca metódica do saber humano, dominada por várias posições fundamentais e características, tais como:

1º – A desconfiança dos sentidos
2º – A confiança absoluta no poder da razão
3º – A necessidade da purificação e do amor para a aquisição da verdade filosófica
4º – A necessidade da existência do mundo ideal para fazer possível a verdadeira ciência

Neste acepção menos rígida Platão tem uma filosofia própria e certamente das mais geniais que a história reconhece. Por esta questão há uma dificuldade de apresentar uma síntese ordenada do platonismo e por isso os críticos modernos preferem estudar a evolução de suas doutrinas ao invés de definir sua gênesis. Este método tem a vantagem de apresentar Platão como ele foi e não tentando definir uma idéia fixa de seu pensamento.

Platão é o primeiro pensador que desenvolveu toda temática filosófica. A filosofia pré-socrática era fragmentaria e se reduzia quase exclusivamente ao problema cosmológico. Sócrates mudou de direção e orientou sua investigação para o problema ético e psicológico. Com Platão a filosofia penetra em ambos domínio e entra a ciência do objeto e do sujeito. Além disso, com Platão convergem todas as correntes anteriores. O ser de Permênides e o devir de Heráclito, os números de Pitágoras e os conceitos e definições universais de Sócrates, todo esse acervo de doutrinas opostas se unificam em Platão mediante sua original teoria das idéias que constitui o eixo do platonismo como no modelo divisório abaixo, comum na escola platônica:

Ciência das idéias em si: Dialética

Ciência da participação das idéias
–No mundo sensível: Física
–No mundo moral: Ética
–No mundo artístico: Estética

Nascimento da Filosofia clássica

02/02/2009

Nascimento da filosofia clássica – período lógico-eurístico

Ao final da etapa pré-socrática se inicia na filosofia grega uma época de cansaço e decadência intelectual caracterizada pelo ascetismo dos sofistas. A semente do ascetismo estava já latente nos eleatas e em Demócrito. A antinomia Heráclito-Parmênides com as soluções insuficientes que lhe deram os atomistas, acabou por levar os espíritos à duvida. Soma-se à esse momento as condições sócio-políticas da época. A vitória contra os persas produziu uma grande prosperidade em todas as ordens. Ao florescimento literário e artístico do século de Péricles se une um grande desejo de saber e divulgação da ciência por todas as classes da sociedade. Mas esta mesma difusão do saber científico acabou em dano à própria ciência que se tornou mais utilitária e superficial. A constituição democrática da República ateniense estimulou os jovens a cultivar a arte de falar e persuadir, com vistas a conquistar cargos públicos. Desta maneira o estudo sério da filosofia e das ciências foi substituído pelo cultivo da arte singular de defender as próprias opiniões e, com dizia Protágoras, de fazer forte o discurso débil. Com isto foi deixado de lado a investigação da verdade e se busca somente triunfar uma tese qualquer. Logo os sofistas se encarregaram de difundir que não existe verdade objetiva e que tudo pode ser provado ou refutado.

Neste momento Sócrates se lança contra esse ascetismo dos sofistas com sua metodologia científica. Sócrates foi o mais terrível adversário dos sofistas. Mesclado como eles, entre os jovens, e usando suas próprias técnicas pedagógicas, orientou o pensamento grego para o conhecimento exato dos conceitos das coisas e as virtudes morais. Os pré-socráticos ficam já muito distantes dessas atualidades. O ascetismo dos sofistas foi superado. E o terreno está preparado para a grande floração do platonismo.

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas – Resumo

31/01/2009

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas
(550 a 450 AC)

1 – Explicação dinâmica: Os princípios do movimento são intrínsecos as coisas; existência de elementos qualitativamente diferentes.

1.a Heráclito de Éfeso (535 a 465 AC): O princípio é o fogo, vivo, inteligente e divino (Logos); panta rhei tudo corre, tudo flui- ; polemos pater panton – o conflito é o pai de todas as coisas.

2 – Explicação estática e unitária: Princípio meramente formal; racionalismo extremo; monismo abstrato:

2.a – Xenófanes (570 a 480 AC): o teólogo da escola; ensina um monismo incompleto porque admite algum devir e multiplicidade e imutabilidade de Deus. Rechaça a transmigração das almas.
2.b – Parmênides (540 AC): o metafísico da escola; ensina um monismo rigoroso pois nega todo devir e multiplicidade; formula o princípio do racionalismo – ser e pensar é o mesmo.
2.c – Zenão (520 AC): o dialético da escola; estabelece as aporias dialéticas – dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica; Paradoxos de Zenão.

Capítulo 2, artigo 2 – Parmênides

23/01/2009

Parmênides (540 AC)

Sucessor e discípulo de Xenófanes, Parmênides é o metafísico da escola eleata. Seu mérito principal consiste no descobrimento do ser. Parmênides inaugura o pensamento que a primeira coisa que se deve dizer da realidade é o que é, que é o ser. O que é esse ser? Antes de tudo ele deve ser. Daí o princípio: o ser é. Este princípio se contrapõe ao seu par: O não-ser, não é. Destes dois princípios deduz todo seu sistema. Em efeito, se só o ser é, deve ser único, pois, se existir algo junto ao ser, só poderia ser o não-ser e o não-ser não é, não existe. Deve também ser imóvel porque o ser que muda não é ser. Finalmente o ser é não-criado já que ao contrário só poderia preceder do não-ser e o não-ser não é. Então o ser é, para Parmênides, uno, imóvel, e não-criado. Ainda que infinito ou eterno, espacialmente é delimitado e finito. Parmênides concebe o ser como uma esfera compacta e contínua cujas partes desde o centro para qualquer direção têm o mesmo peso. Desenvolve o conceito do ser sem fixar-se na experiência, pois ela dirá o contrário. Então, de que parte está a verdade? Na experiência ou na razão? Parmênides não duvida em responder que está na razão. O mundo que nos oferece a experiência é todo de multiplicidade e movimento, é um mundo aparente, que nada tem a ver com a razão, sendo somente alimento dos pensamentos ilusórios dos mortais.

Esta é a arquitetura da antologia parmenidiana. No fundo deste sistema está o princípio do racionalismo exagerado que Parmênides enuncia assim: “a mesma coisa é pensar e ser”. O erro fundamental de Parmênides é considerar o mundo conceitual tão ligado com a verdade que deixa o mundo real reduzido a mera aparência ilusória. Ao mesmo tempo o grande mérito não é só a descoberta do ser, mas também ter desenvolvido de tal forma sua metafísica que só se pode chegar a Deus para que seja verdadeira. Santo Agostinho, séculos depois, reproduz seu mesmo conceito “não foi nem será, porque de uma só vez tudo é”.

Obs.: Há um bom resumo de Parmênides que se encontra na Wikipédia baseado no livro Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da Ciência Grega do autor Miguel Spinelli. Aconselho para quem se interessar em aprofundar o estudo aqui. Há também um resumo mais sintético no site da PUC SP.  Um texto mais completo sobre Parmênides pode ser encontrado na WebArtigos.com escrito por ROSA, Garcia.

Capítulo 2, artigo 2 – Os Eleatas

22/01/2009

Os Eleatas

Em oposição a Heráclito que se fixou na experiência e afirmou que tudo no mundo é o devir, os eleatas, apoiando-se somente na razão, estabelecem que tudo é ser e de uma maneira puramente racionalista identificam a ordem das coisas com a ordem das idéias e vão parar na negação de toda multiplicidade e no monismo estritamente racionalista. Então se o ser é tão somente uno, único e imutável e, com esse mesmo conceito do ser, surge a seguinte questão: Como se explicam as mudanças que vemos nas coisas? Ao resolver esta dificuldade os eleatas incorrem no fenomenismo e, mais ainda, no ilusionismo, pois dizem que as mudanças não existem na realidade, sendo tão somente uma ilusão dos sentidos, que a razão deve corrigir. Decorrem então os princípios supremos do monismo eleático:

1 – O ser é uno, único, imutável

2 – Nenhum ser pode se reproduzir nem perecer, pois, caso contrário, o ser o aumentaria ou diminuiria, o que é impossível.

3 – Como só existe um ser, o mundo e Deus são a mesma coisa. A concepção de Deus é material e hilozoísta (1).

O processo da filosofia eleática é como se segue: Xenófanes mostra um monismo ainda imperfeito e mais teológico; Parmênides, de uma maneira extremamente rígida, a desenvolve produzindo um racionalismo metafísico; Zenão se esforça em defender dialeticamente a doutrina de Parmênides; finalmente Meliso a aplica à ordem física.

(1) hilozoismo – Doutrina metafísica que considera que a materia é animada, sensível e espontânea em atuações e respostas – do site WordReference.com

Capítulo 2 – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas

21/01/2009

A antinomia (1) ser-devir (2) em Heráclito e os eleatas (3)

O pensamento pré-socrático, impulsionado pelo problema cosmológico da mudança, foi acentuado até agora pelos aspectos do ser.

Os jônicos se deram conta que toda mudança supõe alguma coisa fixa e, em busca dessa misteriosa realidade, encontram seu príncípio: a matéria.

Os pitagóricos advertem logo que um princípio material não pode esgotar o ser das coisas. Há nelas algo mais, algo que é próprio e peculiar de cada uma e que as distingue das demais. E, também em busca desse algo, encontram seu princípio formal: o número.

Heráclito com visão mais profunda vai fixar-se na mudança das coisas e diz: a essência das coisas é o devir. Coloca-se, então, um novo problema, que ressaltado na posição contraditória dos eleatas, vai orientar toda a filosofia grega até Aristóteles.

Os eleatas na realidade se instalaram do outro lado do campo de visão do heraclitismo e, destacando a imagem estática do mundo que postula nossa razão, afirmam: as coisas são o ser, até o ponto que é impossível o devir. Assim nasce o tema central do pensamento pré-socrático que se chama de antinomia Heráclito-Parmênides.

(1) Antinomia: na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo ceticismo, tal como o Kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites cognitivos ou as contradições existentes ao intelecto humano. (dicionário Houaiss)
(2) Devir: 1 vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir-a-ser (dicionário Houaiss)
(3) Eleata: relativo a Eléia, cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), ou o que é seu natural, ou habitante; eleático.


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