Archive for the ‘Aristóteles’ Category

Sócrates (469 a 399 AC) – 4ª e última parte

15/02/2009

Doutrina socrática: (continuação e finalização)

O objeto da filosofia socrática é o homem como ser moral. Desta maneira Sócrates dá início ao período antropológico da filosofia grega de forma magnífica. A consideração do mundo e de Deus não é inteiramente descuidada, mas é somente empregada quando necessária e subordinada ao objeto primário, como dito, o homem como ser moral.

Assim Sócrates, da ordem e da finalidade do mundo, deduz a existência de Deus como um ser uno, com suprema inteligência, sábio, onipotente, bom e generoso provedor, mas não se preocupa em dar uma definição mais além de Deus, pois basta-lhe o conhecimento de Deus que faz o homem trabalhar moralmente.

Sócrates, apoiado neste conhecimento de um Deus bom e provedor, não só fazia um certo otimismo antropológico como vimos anteriormente, mas também um otimismo cosmológico: este mundo é o melhor e não traz nada de mau em si mesmo.

Ainda que Sócrates não tenha desenvolvido um sistema completo de filosofia, contribuiu muito com seu progresso, mais ainda, desenvolveu o período sistemático, por que:

1º – Procurando das conceitos e definições claras o direto e exato método científico/filosófico que Platão e Aristóteles aperfeiçoaram mais tarde e cultivaram em todas as áreas da filosofia.

2º – Iniciou o período antropológico que, ante tudo, considera o homem e planta os fundamentos da filosofia ética. Além dessa consideração ética e antropológica, ampliar muitas outras áreas de filosofia.

3º – Com esta consideração ética aponta o íntimo vínculo entre a filosofia teórica e a vida prática, apesar de alguns exageros nessa linha.

4º – Merece elogios também pelo combate ao ascetismo teórico e a perniciosa licença política e moral de sua época.

Sugestão de leitura complemetar:

Rosana Madjarof no site Mundo dos Filósofos

Marilena Chauí no site Scribd

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Formação da filosofia clássica

01/02/2009

Formação da filosofia clássica – período de evolução ou antropológico

1 – Introdução

Podemos dividir o caráter desse período em: 1º Convergem para Atenas muitas doutrinas filosóficas diversas porque muitos filósofos se mudam para lá e assim seus pensamentos não só são conhecidos como uns estimulam os outros e acrescentam suas investigações filosóficas; 2º O fluxo dos sofistas provoca uma reação contrária e assim aparecem vários filósofos que trabalham com todas suas forças para defender e provar cada vez mais profundamente o valor objetivo tanto do conhecimento como da ordem moral; 3º Todas essas correntes os obrigam a tratar do problema antropológico; 4º A filosofia não deixa de ser dogmática porque não se põe em dúvida a aptidão e atitude da mente para conhecer a verdade; 5º São propostas as questões fundamentais da filosofia; a investigação é mais aprofundada e aguda; a exploração da doutrina é feita de forma mais perfeita, porém poético-literária por Platão e mais científica, metódica e estritamente racional com Aristóteles. As obras destes filósofos constituem um exemplar clássico para a posteridade e por essa razão se diz que este período é o ponto culminante da filosofia antiga; 6º Pode-se afirmar que o objeto principal da filosofia deste período é o homem, que o método predominante é a observação psicológica e a reflexão racional, e que este período é da perfeição e da maturidade.

2 – Divisão

Em quatro capítulos. O primeiro sobre o nascimento da filosofia clássica na rivalidade socrática-sofística (1). O segundo sobre seu pleno desenvolvimento pelas obras de Platão e Aristóteles. O terceiro sua decadência nas escolas estóicas e epícuras. No quarto e último sua dissolução com o ascetismo (2) e ecletismo (3).

Distinguem-se, então, o grande período central da filosofia grega em quatro períodos: 1º período lógico-eurístico, 2º período sistemático, 3º período ético e 4º período ascético.

(1) Sofisma: argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. (1.a) Sofística: FIL na Grécia dos séculos V e IV AC, fenômeno cultural de implicações filosóficas, e especialmente retóricas, caracterizado pelos ensinamentos e doutrinas dos diversos mestres da eloqüência denominados sofistas (Protágoras de Abdera, Górgias de Leontinos, etc), que, além de ministrarem aulas de oratória e cultura geral para os cidadãos gregos, interferiam em acirrados debates filosóficos, religiosos e políticos da época.

(2) Ascetismo: FIL REL doutrina de pensamento ou de fé que considera a ascese, isto é, a disciplina e autocontrole estritos do corpo e do espírito, um caminho imprescindível em direção a Deus, à verdade ou à virtude.

(3) Ecletismo: FIL diretriz teórica originada na Antiguidade grega, e retomada ocasionalmente na história do pensamento, que se caracteriza pela justaposição de teses e argumentos oriundos de doutrinas filosóficas diversas, formando uma visão de mundo pluralista e multifacetada.

Obs.: todas as definições são extraídas do dicionário Houaiss.

Capítulo 3 – Anaxágoras

27/01/2009

Anaxágoras (500 a 428 AC)

Célebre descobridor do Nous, de quem Aristóteles disse que foi o único sóbrio no meio de uma turba de ébrios, Anaxágoras nasceu em Clazômena na Jônia (antiga Ásia menor, hoje Turquia) por volta de 500 AC. Anaxágoras desenvolve um atomismo qualitativo. Os quatro elementos de Empédocles (água, ar, fogo e terra) se convertem em uma infinidade de elementos qualitativamente diferentes e imutáveis que são como as sementes de todas as coisas. Estes elementos, que Aristóteles chama de homeomerias (1) (ou homeomérias – encontram-se ambas grafias portuguesas), são ilimitados em número e espécie e, ainda que infinitamente pequenos, são divisíveis mais e mais. A partir destes corpúsculos Anaxágoras explica a formação do cosmos, inserindo um princípio novo: o impulso motor e ordenador: a Inteligência (alguns chamam de Razão) ou Nous. A função deste Nous anaxagórico é dupla: por em ação a massa inerte dos elementos e ordenar o conjunto do universo. Então, o Nous é a causa do movimento e da ordem cósmicas. Anaxágoras não pretendeu chegar até o final, seu Nous se contenta em dar o impulso inicial e, depois, a maneira de Deus e dos deístas, abandona o mundo a si mesmo, a sua própria sorte.

Não é claro também o pensamento de Anaxágoras acerca da natureza imaterial do Nous, pois se de um lado o distingue das homeomerias, de outro o considera como a forma mais tênue das coisas. A solução para esta contradição parece ser a seguinte: Anaxágoras fazia clara distinção entre o nous e as homeomerias que lhe devem o impulso ordenador, mas, por carecer de uma idéia clara sobre a diferença essencial do corpo e do espírito, não supôs liberar seu incipiente espiritualismo de toda influência sobre a matéria. A completa elaboração de um conceito tão difícil como o do espírito era trabalho tão grande e delicado que não poderia ser realizado por um só homem.

O grande mérito de Anaxágoras é ter sido o descobridor do Nous e o primeiro a introduzir a idéia de uma Inteligência transcendente como última explicação da ordem e teologia do cosmos.

(1) Homeomeria: FIL no pensamento do filósofo Anaxágoras (499-428 a.C.), qualquer porção, pequena ou grande, do mundo material que, embora contenha necessariamente todas as múltiplas e contraditórias qualidades encontráveis no resto do universo, pode ser definida e caracterizada por uma qualidade preponderante ou hegemônica. (dic. Houaiss)

Sugestões de leitura: Webartigos e um texto de Mario Ferreira dos Santos no portal Philosophia Perennis

Capítulo 2, artigo 1 – Heráclito

21/01/2009

Heráclito

Chamado de “o escuro” por causa da obscuridade de um poema filosófico(*), desenvolveu sua filosofia em Éfeso no ano 500 AC. Filho de família nobre, cedeu a seu irmão a dignidade sacerdotal, hereditária em sua linhagem, e renunciou a toda atuação na vida pública. Recebeu também o apelido de “filósofo chorão” pela gravidade hierática (1) de suas sentenças e, talvez, a seriedade sombria de seu caráter.

Heráclito é o filósofo do devir. A fórmula clássica de seu pensamento foi reconhecida por Aristóteles. É célebre também pela frase: “Não pode banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. Mas a concepção heraclicista do devir universal está longe do moderno à época que propunha um movimento sem sujeito que se mova. Heráclito estabelece como princípio do devir o fogo. Tudo procede desse fogo eternamente vivo e tudo deve voltar ao mesmo fogo para surgir de novo em um processo circular de nascimento e destruição. E se o mundo é devir e o princípio do devir é o fogo em que tudo coincide, o todo é único, o Uno. Mas essa unidade brota da diversidade, da tensão dos opostos. A harmonia do universo resulta da coincidência dos distintos e o nascimento e conservação dos seres se devem a um conflito de contrários. Heráclito concebe esse fogo que tudo unifica com inteligência e divindade: o logos (2). Espírito e razão são inseparavelmente contidos em tudo e tudo se faz conforme a razão, dando aos seres harmonia em suas diferenças e regendo o universo segundo a lei da ordem. A alma do homem não é mais que uma centelha desse fogo divino, a qual, como todas as coisas, há de transformar-se e voltar, ressurgir.

O progresso de Heráclito é claro. Ele introduz na filosofia duas idéias tão importantes como o devir e o logos, que estimularam mais adiante o pensamento grego. Seu erro conceitual consiste em estabelecer o devir como essência das coisas. Com esse erro nega a própria característica do logos que é a possibilidade de uma imagem científica do Universo.

(1) Hierático: relativo às coisas sagradas ou religiosas.
(2) Logos: Para Heráclito de Éfeso, conjunto harmônico de leis, regularidades e conexões que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica onipresente que se plenifica no pensamento humano (dicionário Houaiss)

(*) procurar o poema –> pendência

Capítulo 1, artigo 2 – Os Pitagóricos – (terceira parte)

21/01/2009

Outros pitagóricos e suas contribuições

A escola pitagórica teve muitos filósofos célebres, entre os quais se sobressai Filolao que dizem ser o primeiro a indicar o movimento da Terra ao redor do Sol e Hicetas que indicou o movimento da Terra em redor de seu eixo. Esta doutrina, reproduzida por Aristarco de Samios, no século III AC e desacreditada depois pela autoridade de Aristóteles, foi ressuscitada e desenvolvida cientificamente por Copérnico, que confessa que em suas investigações ter sido estimulado por Hicetas, que conheceu nos escritos de Cícero (1).

Esta passagem de Cícero diz assim: “Hicetas de Saracusa, como disse Teofrato, crê que o céu, o Sol, a Lua, as estrelas e finalmente, todos os corpos celestes, estão quietos, parados, e que nenhuma coisa se move no mundo, com exceção da Terra, que gira e dá voltas com grande rapidez ao redor de seu eixo e que produz os mesmos efeitos que se produziriam se, estando parada a Terra, se movesse o céu”.

Além de Filolao e Hicetas, pertencem à escola pitagórica os contemporâneos de Sócrates Lysis, Hipaso, Somias e Cebes, tantas vezes comentados por Platão, Arquitas tarentino, célebre na Mecânica, o médico Alcmeon que indicou que o cérebro é o orgão central da sensibilidade, Timeo locrense e Ocelo lucano.

(1) confirmar

Capítulo 1, artigo 2 – Pitágoras

20/01/2009

Pitágoras (580 a 500 AC)

Oriundo da ilha de Samos fundou em Crotona, na Grécia, uma escola que teve grande influência não só por suas doutrinas filosóficas como também pela sua ética pura e austera e por suas tendências políticas. A ideologia pitagórica constitui um progresso indubitável em relação à ideologia jônica. Os pitagóricos não investigam de que são formadas as coisas, mas sim o que são as coisas, e sua resposta é que as coisas são números. Aristóteles nos dá a razão dessa estranha afirmação: “Os chamados pitagóricos se dedicaram às matemáticas e fizeram progressos nesta ciência, mas embebidos em seu estudo, acreditaram que os elementos das matemáticas (os números) eram também os princípios de todos os seres”.

Apoiados em seu princípio os pitagóricos desenvolvem uma espécie de análise do número, cujos resultados aplicam na realidade. Os elementos do número são o par e o ímpar. O número par, como divisível mais e mais, representa o infinito. O ímpar, por não ser divisível, representa o finito. A unidade participa de ambos os elementos por ser, a sua vez, par e impar.

Estes princípios do número adquiridos racionalmente são também os princípios do ser. As coisas se compõem de finito e infinito, o que é o mesmo, de um elemento limitado e outro ilimitado que são reduzidos à unidade pela harmonia. Tudo é, portanto, harmonia de ilimitação e limite. E a totalidade dos seres, o Universo, é também harmonia. A filosofia pitagórica culmina em um misticismo matemático-religioso, síntese das influências órfica (1) e científica que incluía a escola. O universo se concebe como um fogo central, o Uno, entorno do qual giram os astros divinos, entre eles a Lua e a Terra, e de sua ordenada evolução se origina a música harmoniosa das esferas (2). Os astros são dez por respeito ao sagrado número 10, que, por ser a soma dos quatro primeiros (1+2+3+4=10) era considerado como o mais perfeito. A alma se concebe como a harmonia do corpo e, em conseqüência, parece que deveria parecer com ele. Sem dúvida é tida por imortal e divina e unida ao corpo por causa de uma certa culpa primitiva (3). Para purgar este pecado o homem deve praticar a virtude, que é também pensada em função da harmonia e número. O destino final do homem se condiciona ao feito de haver alcançado a interna harmonia entre os sentidos e a razão. Só as almas harmônicas podem alcançar a boa ventura. As restantes se vêem sujeitas à metempsicose (4) até que a harmonia de sua vida imite um modo de viver divino.

(1) órfica – 1. adj. Pertencente ou relativo a Orfeu, poeta e músico grego mítico – (definição da Real Academia Espanhola).
(2) e (3) – pesquisar posteriormente
(4) metempsicosisDoctrina religiosa y filosófica que sostiene que las almas de los muertos transmigran a otros cuerpos cuyo grado de perfección varía según los merecimientos de la vida anterior: la escatología del hinduismo se basa en la metempsícosis. (WordReference.com)

Sugestão de leituras complementares na Wikipédia e no site Imática

Capítulo 1, artigo 1 – Os Jônicos – Anaximandro de Mileto

19/01/2009

Anaximandro de Mileto (610 a 547 AC)

Parte da idéia de Tales que a variedade e multiplicidade aparente das coisas se resolve num princípio único. Mas, superando seu mestre, entende que este princípio não pode ser uma coisa determinada como a água, mas algo indeterminado, infinito, imortal e divino, que governa o todo,  que chama de ápeiron (*). Sempre foi difícil a definição desse ápeiron anaximândrico. Para Zeller seria uma espécie de primeira matéria aristotélica, porém viva e imortal.

Do centro de ápeiron, e por uma espécie de separação espontânea, brotam as coisas do mundo empírico. Anaximandro desenvolve uma teoria original da evolução e se adianta em 25 séculos às modernas hipóteses de Kant-Laplace e Lamark-Darwin. As primeiras manifestações que surgem desse processo dissociativo de ápeiron são o frio e o calor, que se condensam respectivamente na terra e no céu das estrelas fixas. Dentro da terra se separam, por sua vez, no sólido e no líquido, dando origem aos mares e ao continente. Pela ação do céu ardente os vapores ascendem do mar  e formam a região do ar entre a terra e o céu. Depois, do barro, originado pela separação parcial do mar e debaixo da ação incubadora do calor, aparecem os primeiros organismos em uma grande cadeia evolutiva que vai desde os peixes até o homem. Este singular evolucionismo anaximândrico, ascendente e construtivo, se consuma com o retorno das coisas ao centro de ápeiron, em castigo de um misterioso pecado que cometeram ao começar a existir. “As coisas devem perder-se onde nasceram, em penitência e castigo da sua injustiça, segundo a ordem do tempo”.

Anaximandro introduz o conceito de infinito e da evolução cósmica. Sua filosofia é o primeiro ensaio ocidental da explicação do universo por derivação do infinito.

(*) ápeiron no Dicionário Houaiss – grego – para o filósofo grego Anaximandro, a realidade infinita, ilimitada, invisível e indeterminada que é a essência de todas as formas do universo, sendo concebida como o elemento primordial a partir do qual todos os seres foram gerados e para o qual retornam após sua dissolução.

Capítulo 1, artigo 1 – Os Jônicos – Tales de Mileto

19/01/2009

Tales de Mileto (624 a 562 AC)

Foi um dos “sete sábios” e estabeleceu a água como primeiro princípio de todas as coisas. Segundo Aristóteles parece que estabeleceu esta opinião por entender que a umidade é necessária para toda evolução vital. Mas seu mérito não está em ter colocado a água como princípio de todas as coisas, mas sim por ter proposto a questão dos princípios das coisas. Por esta razão Aristóteles o chama de “o fundador da filosofia da natureza”.

Os pensadores posteriores de Mileto conceberam a matéria primitiva desenvolvendo-se por suas próprias forças, como se estivesse dotada de vida. Tales pensou da mesma maneira? Parece que não, que se desprende desse conceito, que pode ser visto em De Anima (Da Alma) de Aristóteles, que veremos mais à frente: “Tales pensou que todas as coisas estavam cheias de deuses”. Em seu livro Metafísica, Aristóteles diz que Tales entendia a existência de alma nas coisas, ao observar que o imã atraía o ferro.

“O esforço investigativo de Tales no sentido de descobrir uma unidade, que seria a causa de todas as coisas, representa uma mudança de comportamento na atitude do homem perante o cosmos, pois abandona as explicações religiosas até então vigentes e busca, através da razão e da observação, um novo sentido para o universo”. (do site Fórum Filosofia, coordenado por Filipe Galvão)