Archive for the ‘Heráclito’ Category

Platão – Dialética – 3ª parte – Teeteto

01/03/2009

A ciência não é sensação (Teeteto)

A posição fundamental de Platão em relação com o problema da ciência ou conhecimento certo é: a ciência não pode identificar-se com a sensação nem com nada que, em última instância, se reduza a sensações. Para Platão dizer que a ciência é igual a sensação é simplesmente negar a ciência. O sensitivo está intimamente entrelaçado com a doutrina de Heráclito sobre o devir universal e o dito de Protágoras que o homem é a medida de todas as coisas. Neste caso tudo se transforma numa cadeia ininterrupta de fenômenos. O homem arrastado por este turbilhão fluido onde se encontra, nada pode conhecer fora da impressão fugaz que este fluxo de coisas produz em seus sentidos. E esta impressão puramente pessoal e irreproduzível é precisamente a sensação. A conseqüência lógica é, pois, a de Protágoras: cada homem é para si mesmo a medida de todas as coisas. Não existe a verdade nem é possível ensiná-la. Impõe-se o ascetismo e o silêncio.

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Platão – Dialética – 1ª parte

27/02/2009

Dialética Platônica – 1a parte

Para conhecer Platão é indispensável o estudo da genesis de sua teoria das idéias. Os filósofos anteriores haviam chegado, em relação com o problema da ciência, a uma série de posições antinômicas. Para Parmênides o real se identifica com o ser único e imóvel, acessível só pela razão. Para Heráclito, ao contrário, a realidade se identifica com o devir múltiplo e mutável. A conseqüência desta posição é clara: se tudo no mundo é puro devir é impossível o conhecimento certo. Protágoras tira da conseqüência destas posições a relatividade total do conhecimento humano. Finalmente Sócrates, ao contemplar a difícil situação que havia chegado a filosofia no estudo do objeto se orienta ao sujeito e descobre os conceitos das coisas. Este era o estado do problema ao chegar a Platão. Deste apanhado caótico de doutrinas devia surgir sua teoria das idéias. Platão parte para ela com o princípio que a ciência verdadeira é possível. Mas a ciência não pode ter por objeto os seres mutantes do mundo como disse Heráclito que fluem perpetuamente, mas algo que seja imutável e eterno, pois só do imutável e eterno, como disse Parmênides, pode haver conhecimento certo.

Logo Platão conclui que por cima da ordem da realidade sensível deve existir uma realidade inteligível eternamente igual a si mesma, a qual remontamos com os conceitos, como havia descoberto Sócrates. Desta maneira Platão unificou as teorias de seus antecessores. Heráclito tinha razão ao afirmar que tudo em nosso mundo sensível é devir, mas se enganava ao negar a existência do verdadeiro ser. Parmênides também tinha razão ao proclamar a existência do ser, mas se equivocava ao fazê-lo único e ao negar a realidade do Universo. Finalmente Sócrates tinha razão ao buscar a ciência nos conceitos e definições dos objetos, mas devia ter estendido sua investigação ao mundo metafísico e estabelecido, como fundamento de seus conceitos, uma essência objetiva transcendente: a idéia.

Platão – introdução à sua filosofia

24/02/2009

Introdução a filosofia de Platão

Platão tratou de quase todos os temas da filosofia. Mas há uma Filosofia de Platão?

Se por filosofia se entende um conjunto harmônico de teses ordenadas e coerentes então a filosofia de Platão não existe. O pensamento de Platão está sempre caminhando. Nada mais longe de sua mentalidade que a ordem e a coerência. Entretanto em um sentido mais amplo pode se falar de uma filosofia platônica se por filosofia se entende uma busca metódica do saber humano, dominada por várias posições fundamentais e características, tais como:

1º – A desconfiança dos sentidos
2º – A confiança absoluta no poder da razão
3º – A necessidade da purificação e do amor para a aquisição da verdade filosófica
4º – A necessidade da existência do mundo ideal para fazer possível a verdadeira ciência

Neste acepção menos rígida Platão tem uma filosofia própria e certamente das mais geniais que a história reconhece. Por esta questão há uma dificuldade de apresentar uma síntese ordenada do platonismo e por isso os críticos modernos preferem estudar a evolução de suas doutrinas ao invés de definir sua gênesis. Este método tem a vantagem de apresentar Platão como ele foi e não tentando definir uma idéia fixa de seu pensamento.

Platão é o primeiro pensador que desenvolveu toda temática filosófica. A filosofia pré-socrática era fragmentaria e se reduzia quase exclusivamente ao problema cosmológico. Sócrates mudou de direção e orientou sua investigação para o problema ético e psicológico. Com Platão a filosofia penetra em ambos domínio e entra a ciência do objeto e do sujeito. Além disso, com Platão convergem todas as correntes anteriores. O ser de Permênides e o devir de Heráclito, os números de Pitágoras e os conceitos e definições universais de Sócrates, todo esse acervo de doutrinas opostas se unificam em Platão mediante sua original teoria das idéias que constitui o eixo do platonismo como no modelo divisório abaixo, comum na escola platônica:

Ciência das idéias em si: Dialética

Ciência da participação das idéias
–No mundo sensível: Física
–No mundo moral: Ética
–No mundo artístico: Estética

Protágoras

04/02/2009

Protágoras de Abdera (480 a 410 AC) Protágoras ensinou retórica na Sicília, na Itália e em Atenas e foi tão versado em ciências que alguns o admiravam como um deus por sua sabedoria. Caiu no ascetismo por causa da doutrina de Heráclito sobre o perpétuo fluxo de todas as coisas e sobre o valor somente relativo do conhecimento sensível. Ensinou o ascetismo e o relativismo com estas palavras “Assim como as coisas me parecem, assim elas o são para mim; assim como elas te parecem, assim elas os são para ti pois tu és homem e também o sou”. Há outra frase sua célebre “O homem é a medida de todas as coisas: das que existem, porque são; e das que não existem, porque não são”. Esta doutrina de Protágoras não exibe, contudo, o relativismo universal antropológico, mas o relativismo individualista que aparece manifestada na sentença acima. A maior importância de Protágoras foi por ter sido o primeiro que desenvolveu a doutrina de Heráclito que havia concebido não somente o contínuo fluxo das coisas, e que nós conhecemos algo estável como princípio deste fluxo contínuo, que é o fogo. Protágoras, de outra forma, ensinou que existe somente algo indeterminado que não se pode conhecer, e estabeleceu a impossibilidade de todo conhecimento exato, coisa que Heráclito não havia feito.

Obs.: sugestão de leitura complementar – texto de Ricardo Gonçalves no site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Nascimento da Filosofia clássica

02/02/2009

Nascimento da filosofia clássica – período lógico-eurístico

Ao final da etapa pré-socrática se inicia na filosofia grega uma época de cansaço e decadência intelectual caracterizada pelo ascetismo dos sofistas. A semente do ascetismo estava já latente nos eleatas e em Demócrito. A antinomia Heráclito-Parmênides com as soluções insuficientes que lhe deram os atomistas, acabou por levar os espíritos à duvida. Soma-se à esse momento as condições sócio-políticas da época. A vitória contra os persas produziu uma grande prosperidade em todas as ordens. Ao florescimento literário e artístico do século de Péricles se une um grande desejo de saber e divulgação da ciência por todas as classes da sociedade. Mas esta mesma difusão do saber científico acabou em dano à própria ciência que se tornou mais utilitária e superficial. A constituição democrática da República ateniense estimulou os jovens a cultivar a arte de falar e persuadir, com vistas a conquistar cargos públicos. Desta maneira o estudo sério da filosofia e das ciências foi substituído pelo cultivo da arte singular de defender as próprias opiniões e, com dizia Protágoras, de fazer forte o discurso débil. Com isto foi deixado de lado a investigação da verdade e se busca somente triunfar uma tese qualquer. Logo os sofistas se encarregaram de difundir que não existe verdade objetiva e que tudo pode ser provado ou refutado.

Neste momento Sócrates se lança contra esse ascetismo dos sofistas com sua metodologia científica. Sócrates foi o mais terrível adversário dos sofistas. Mesclado como eles, entre os jovens, e usando suas próprias técnicas pedagógicas, orientou o pensamento grego para o conhecimento exato dos conceitos das coisas e as virtudes morais. Os pré-socráticos ficam já muito distantes dessas atualidades. O ascetismo dos sofistas foi superado. E o terreno está preparado para a grande floração do platonismo.

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas – Resumo

31/01/2009

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas
(550 a 450 AC)

1 – Explicação dinâmica: Os princípios do movimento são intrínsecos as coisas; existência de elementos qualitativamente diferentes.

1.a Heráclito de Éfeso (535 a 465 AC): O princípio é o fogo, vivo, inteligente e divino (Logos); panta rhei tudo corre, tudo flui- ; polemos pater panton – o conflito é o pai de todas as coisas.

2 – Explicação estática e unitária: Princípio meramente formal; racionalismo extremo; monismo abstrato:

2.a – Xenófanes (570 a 480 AC): o teólogo da escola; ensina um monismo incompleto porque admite algum devir e multiplicidade e imutabilidade de Deus. Rechaça a transmigração das almas.
2.b – Parmênides (540 AC): o metafísico da escola; ensina um monismo rigoroso pois nega todo devir e multiplicidade; formula o princípio do racionalismo – ser e pensar é o mesmo.
2.c – Zenão (520 AC): o dialético da escola; estabelece as aporias dialéticas – dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica; Paradoxos de Zenão.

Capítulo 2, artigo 2 – Os Eleatas

22/01/2009

Os Eleatas

Em oposição a Heráclito que se fixou na experiência e afirmou que tudo no mundo é o devir, os eleatas, apoiando-se somente na razão, estabelecem que tudo é ser e de uma maneira puramente racionalista identificam a ordem das coisas com a ordem das idéias e vão parar na negação de toda multiplicidade e no monismo estritamente racionalista. Então se o ser é tão somente uno, único e imutável e, com esse mesmo conceito do ser, surge a seguinte questão: Como se explicam as mudanças que vemos nas coisas? Ao resolver esta dificuldade os eleatas incorrem no fenomenismo e, mais ainda, no ilusionismo, pois dizem que as mudanças não existem na realidade, sendo tão somente uma ilusão dos sentidos, que a razão deve corrigir. Decorrem então os princípios supremos do monismo eleático:

1 – O ser é uno, único, imutável

2 – Nenhum ser pode se reproduzir nem perecer, pois, caso contrário, o ser o aumentaria ou diminuiria, o que é impossível.

3 – Como só existe um ser, o mundo e Deus são a mesma coisa. A concepção de Deus é material e hilozoísta (1).

O processo da filosofia eleática é como se segue: Xenófanes mostra um monismo ainda imperfeito e mais teológico; Parmênides, de uma maneira extremamente rígida, a desenvolve produzindo um racionalismo metafísico; Zenão se esforça em defender dialeticamente a doutrina de Parmênides; finalmente Meliso a aplica à ordem física.

(1) hilozoismo – Doutrina metafísica que considera que a materia é animada, sensível e espontânea em atuações e respostas – do site WordReference.com

Capítulo 2, artigo 1 – Heráclito

21/01/2009

Heráclito

Chamado de “o escuro” por causa da obscuridade de um poema filosófico(*), desenvolveu sua filosofia em Éfeso no ano 500 AC. Filho de família nobre, cedeu a seu irmão a dignidade sacerdotal, hereditária em sua linhagem, e renunciou a toda atuação na vida pública. Recebeu também o apelido de “filósofo chorão” pela gravidade hierática (1) de suas sentenças e, talvez, a seriedade sombria de seu caráter.

Heráclito é o filósofo do devir. A fórmula clássica de seu pensamento foi reconhecida por Aristóteles. É célebre também pela frase: “Não pode banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. Mas a concepção heraclicista do devir universal está longe do moderno à época que propunha um movimento sem sujeito que se mova. Heráclito estabelece como princípio do devir o fogo. Tudo procede desse fogo eternamente vivo e tudo deve voltar ao mesmo fogo para surgir de novo em um processo circular de nascimento e destruição. E se o mundo é devir e o princípio do devir é o fogo em que tudo coincide, o todo é único, o Uno. Mas essa unidade brota da diversidade, da tensão dos opostos. A harmonia do universo resulta da coincidência dos distintos e o nascimento e conservação dos seres se devem a um conflito de contrários. Heráclito concebe esse fogo que tudo unifica com inteligência e divindade: o logos (2). Espírito e razão são inseparavelmente contidos em tudo e tudo se faz conforme a razão, dando aos seres harmonia em suas diferenças e regendo o universo segundo a lei da ordem. A alma do homem não é mais que uma centelha desse fogo divino, a qual, como todas as coisas, há de transformar-se e voltar, ressurgir.

O progresso de Heráclito é claro. Ele introduz na filosofia duas idéias tão importantes como o devir e o logos, que estimularam mais adiante o pensamento grego. Seu erro conceitual consiste em estabelecer o devir como essência das coisas. Com esse erro nega a própria característica do logos que é a possibilidade de uma imagem científica do Universo.

(1) Hierático: relativo às coisas sagradas ou religiosas.
(2) Logos: Para Heráclito de Éfeso, conjunto harmônico de leis, regularidades e conexões que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica onipresente que se plenifica no pensamento humano (dicionário Houaiss)

(*) procurar o poema –> pendência

Capítulo 2 – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas

21/01/2009

A antinomia (1) ser-devir (2) em Heráclito e os eleatas (3)

O pensamento pré-socrático, impulsionado pelo problema cosmológico da mudança, foi acentuado até agora pelos aspectos do ser.

Os jônicos se deram conta que toda mudança supõe alguma coisa fixa e, em busca dessa misteriosa realidade, encontram seu príncípio: a matéria.

Os pitagóricos advertem logo que um princípio material não pode esgotar o ser das coisas. Há nelas algo mais, algo que é próprio e peculiar de cada uma e que as distingue das demais. E, também em busca desse algo, encontram seu princípio formal: o número.

Heráclito com visão mais profunda vai fixar-se na mudança das coisas e diz: a essência das coisas é o devir. Coloca-se, então, um novo problema, que ressaltado na posição contraditória dos eleatas, vai orientar toda a filosofia grega até Aristóteles.

Os eleatas na realidade se instalaram do outro lado do campo de visão do heraclitismo e, destacando a imagem estática do mundo que postula nossa razão, afirmam: as coisas são o ser, até o ponto que é impossível o devir. Assim nasce o tema central do pensamento pré-socrático que se chama de antinomia Heráclito-Parmênides.

(1) Antinomia: na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo ceticismo, tal como o Kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites cognitivos ou as contradições existentes ao intelecto humano. (dicionário Houaiss)
(2) Devir: 1 vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir-a-ser (dicionário Houaiss)
(3) Eleata: relativo a Eléia, cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), ou o que é seu natural, ou habitante; eleático.

Primeiras investigações sobre a natureza das coisas: período de formação pré-socrático ou Cosmológico

19/01/2009

Primeiras investigações sobre a natureza das coisas: período de formação Pré-Socrático ou Cosmológico

Os primeiros filósofos gregos examinavam unicamente o mundo exterior, prescindindo o aspecto psicológico e ético dos problemas. Várias obras dessa época levam o título “Da natureza das coisas”.

Até Sócrates a filosofia grega não tem nenhum centro comum, sendo desenvolvida em diversas regiões que dão origem ao termo “as quatro escolas”.

Escola Jônica em Mileto, Escola Pitagórica ou Itálica, Escola Eleática na Elea e a Escola Abderítica ou Atomística na Abdera.

Esta divisão extrínseca se completa com uma divisão intrínseca, baseada no que os filósofos se ocupavam. O tema central dos pré-socráticos, herdado dos antigos mitos cosmológicos, foi o problema do mundo que os assombrava, sobretudo o movimento, entendido com um sentido amplo que equivale a mudança ou variação. Como se explica que as coisas mudem e dêem lugar a novas coisas que antes não existiam? E se mudam, deve existir algo que não mude, o “primeiro princípio” de que são feitas, então, todas as coisas. Na busca desse princípio que se inicia o pensamento helênico. Os jônicos, com uma visão meramente empírica da realidade, interpretam este princípio num sentido material e o encontram na água, no ar etc. De outro lado os pitagóricos, situados num plano matemático racional, estabelecem como primeiro princípio um elemento formal e abstrato: o número. Com as doutrinas adversas de Heráclito e dos eleatas, o pensamento pré-socrático entra em um estado metafísico e se enfrenta com o grande problema do ser e do devir. Finalmente esta antinomia ser e devir, que é também a antinomia razão-experiência, conduz os atomistas a sua solução mecanicista, que prepara para o esceptismo dos sofistas.

Aqui pode-se separar a filosofia pré-socrática em três estudos, o primeiro cosmológico dos jônicos e pitagóricos, o segundo a antinomia do ser e devir de Heráclito e dos eleatas e, em terceiro as novas cosmologias mecanicistas dos atomistas.