Archive for the ‘Kant’ Category

Platão – dialética – 2a parte

01/03/2009

Platão – Dialética – 2ª parte

Conhecida a gênesis da teoria platônica das idéias passamos para a exposição das mesmas idéias em seu duplo aspecto gnosiológico (1) e metafísico

Aspecto gnosiológico: o problema do conhecimento. Platão não duvida, como Kant, da possibilidade do conhecimento certo, que para ele é o conhecimento das idéias. Sua teoria do conhecimento não é, pois, a investigação crítica que pretende averiguar si é possível o conhecimento, senão uma doutrina metafísica-psicológica que explica como este se realiza. Platão trata profundamente deste problema em dois diálogos. No Teeteto expõe o que não é o verdadeiro conhecimento e na República descreve positivamente os graus de conhecimento. A doutrina se completa em Fedro, Convite e Fédon com a função de Eros e a teoria da reminiscência.

(1) gnosiologia: teoria geral do conhecimento humano, voltada para uma reflexão em torno da origem, natureza e limites do ato cognitivo, frequentemente apontando suas distorções e condicionamentos subjetivos, em um ponto de vista tendente ao idealismo, ou sua precisão e veracidade objetivas, em uma perspectiva realista; teoria do conhecimento.
(dicionário Houaiss)

Capítulo 3 – Demócrito – segunda parte

29/01/2009

Demócrito (470 AC) -… continuação

Demócrito estende também seu materialismo ao tema do homem. A alma não é mais que um conjunto de átomos mais sutis e as sensações se devem ao impacto dos átomos externos nos átomos da alma, sendo os órgãos dos sentidos (visão, audição etc) as passagens (poros) através das quais esses átomos são introduzidos. Daí decorre também sua afirmação que os sentidos são enganosos, as coisas que percebemos não são exatamente como elas são e que as conhecemos somente superficialmente porque há interferências nesse caminho da percepção. A última conclusão desta teoria do conhecimento é a dificuldade de se alcançar a verdade que, segundo Demócrito, se esconde num abismo:

“nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou lhe opõem resistência”

“a verdade jaz num abismo”

Demócrito foi um grande pensador. Seu sistema está cheio de instituições geniais recentemente aprofundadas pela ciência e pensamento modernos. Ressalta-se seu atomismo, sua teoria das qualidades primárias e secundárias da matéria, sua dissociação do mundo sensível e do mundo  inteligível, a física atômica, o subjetivismo de Locke, as modernas criteriologias e o fenomenismo de Kant.

Por se contrapor ao espiritualismo de Anaxágoras, Demócrito é considerado o primeiro ateu formal e seu sistema o primeiro ensaio do materialismo com pretensões científicas.

Sugestão de leitura: Mundo dos Filósofos com texto de Rosana Madjarof.

Capítulo 2 – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas

21/01/2009

A antinomia (1) ser-devir (2) em Heráclito e os eleatas (3)

O pensamento pré-socrático, impulsionado pelo problema cosmológico da mudança, foi acentuado até agora pelos aspectos do ser.

Os jônicos se deram conta que toda mudança supõe alguma coisa fixa e, em busca dessa misteriosa realidade, encontram seu príncípio: a matéria.

Os pitagóricos advertem logo que um princípio material não pode esgotar o ser das coisas. Há nelas algo mais, algo que é próprio e peculiar de cada uma e que as distingue das demais. E, também em busca desse algo, encontram seu princípio formal: o número.

Heráclito com visão mais profunda vai fixar-se na mudança das coisas e diz: a essência das coisas é o devir. Coloca-se, então, um novo problema, que ressaltado na posição contraditória dos eleatas, vai orientar toda a filosofia grega até Aristóteles.

Os eleatas na realidade se instalaram do outro lado do campo de visão do heraclitismo e, destacando a imagem estática do mundo que postula nossa razão, afirmam: as coisas são o ser, até o ponto que é impossível o devir. Assim nasce o tema central do pensamento pré-socrático que se chama de antinomia Heráclito-Parmênides.

(1) Antinomia: na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo ceticismo, tal como o Kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites cognitivos ou as contradições existentes ao intelecto humano. (dicionário Houaiss)
(2) Devir: 1 vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir-a-ser (dicionário Houaiss)
(3) Eleata: relativo a Eléia, cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), ou o que é seu natural, ou habitante; eleático.

Capítulo 1, artigo 1 – Os Jônicos – Anaximandro de Mileto

19/01/2009

Anaximandro de Mileto (610 a 547 AC)

Parte da idéia de Tales que a variedade e multiplicidade aparente das coisas se resolve num princípio único. Mas, superando seu mestre, entende que este princípio não pode ser uma coisa determinada como a água, mas algo indeterminado, infinito, imortal e divino, que governa o todo,  que chama de ápeiron (*). Sempre foi difícil a definição desse ápeiron anaximândrico. Para Zeller seria uma espécie de primeira matéria aristotélica, porém viva e imortal.

Do centro de ápeiron, e por uma espécie de separação espontânea, brotam as coisas do mundo empírico. Anaximandro desenvolve uma teoria original da evolução e se adianta em 25 séculos às modernas hipóteses de Kant-Laplace e Lamark-Darwin. As primeiras manifestações que surgem desse processo dissociativo de ápeiron são o frio e o calor, que se condensam respectivamente na terra e no céu das estrelas fixas. Dentro da terra se separam, por sua vez, no sólido e no líquido, dando origem aos mares e ao continente. Pela ação do céu ardente os vapores ascendem do mar  e formam a região do ar entre a terra e o céu. Depois, do barro, originado pela separação parcial do mar e debaixo da ação incubadora do calor, aparecem os primeiros organismos em uma grande cadeia evolutiva que vai desde os peixes até o homem. Este singular evolucionismo anaximândrico, ascendente e construtivo, se consuma com o retorno das coisas ao centro de ápeiron, em castigo de um misterioso pecado que cometeram ao começar a existir. “As coisas devem perder-se onde nasceram, em penitência e castigo da sua injustiça, segundo a ordem do tempo”.

Anaximandro introduz o conceito de infinito e da evolução cósmica. Sua filosofia é o primeiro ensaio ocidental da explicação do universo por derivação do infinito.

(*) ápeiron no Dicionário Houaiss – grego – para o filósofo grego Anaximandro, a realidade infinita, ilimitada, invisível e indeterminada que é a essência de todas as formas do universo, sendo concebida como o elemento primordial a partir do qual todos os seres foram gerados e para o qual retornam após sua dissolução.