Sócrates – 2a parte – a doutrina

11/02/2009

Sócrates (469 a 399 AC) … 2ª parte

Doutrina socrática:

Sócrates é o mais alto expoente do intelectualismo grego que crê, reagindo aos sofistas, no valor da razão humana. Sua investigação filosófica parte da idéia-postulado que a ciência ainda não existe até o momento, mas que é possível construí-la empregando um método adequado. Aristóteles assim expõe a questão: “Sócrates se encerrou na especulação das virtudes morais e foi o primeiro que indagou as definições universais dos objetos”.

Ressalta-se da resenha aristotélica:

1º – A idéia da investigação lógica de Sócrates que o conduziu aos universais e as investigações das coisas.

2º – O ideal ético que orienta toda sua especulação causava o conhecimento das virtudes morais.

O pensamento socrático inclui os estados lógico e moral intimamente entrelaçados entre si. Na mentalidade de Sócrates “a ciência é o caminho da virtude”

Sócrates, ao dirigir-se à virtude pela ciência necessita antes de tudo conhecer essa última. O método até então empregado lhe parece inadequado. A filosofia até então era fundamentada nos problemas cosmológicos e antológicos, mas a seu juízo os mistérios do mundo e do ser não seriam descobertos até que se penetrasse no conhecimento profundo da natureza humana. O método para esse conhecimento próprio era a introspecção estimulada pelo diálogo.

O diálogo socrático consta de dois processos bem definidos que se chamam ironia e maiêutica (1). A ironia tem por objeto persuadir o interlocutor de sua ignorância, mostrando a ele que aquilo que crê saber, por exemplo a justiça, não é como ele entende. Deste modo o discípulo se vê obrigado a reconhecer sua própria insuficiência e a dizer junto com o mestre: “Só sei que nada sei”. Mas Sócrates não parava na doutrina da ignorância, imediatamente entrava em jogo o segundo passo de seu método: a maiêutica. Valendo-se de hábeis perguntas levantava a conversação dos casos particulares e resultados mais gerais até conseguir, com essa simples forma de indução, que o discípulo iluminasse em seu interior o conceito do objeto e depois de determinar a essência das coisas, alcançasse sua definição.

Os três escalões do método socrático são então: a indução, a conceituação e a definição.

(1) Maiêutica: relativo ao método socrático de ensinar de tal modo que as idéias fossem paridas no curso do diálogo. (dicionário Houaiss)

… continua…

Instituição do Método Científico por Sócrates – 1a parte

07/02/2009

Sócrates (469 a 399 AC)

Nascido em Antenas, primeiro foi escultor, como seu pai, depois se dedicou ao estudo da Filosofia e a educação da juventude, mais profundamente sobre a moral. Sócrates é digno de elogios pela moderação das paixões, pela pureza de sua vida, por sua calma, pela ausência de egoísmo, pelo amor à verdade, pelo seu grande apreço a vida honesta e por seu patriotismo. A grande influência que exerceu na juventude e suas reprovações políticas de ações que considerava indecorosas atraíram ódios de muitos. Acusaram-no de falar mal da religião pública, que depreciava deuses e que corrompia a juventude. Condenado e encarcerado não quis aproveitar uma fuga preparada por um de seus discípulos e cometeu suicídio tomando cicuta.

A verdadeira causa desse ódio que Sócrates atraiu foi sua oposição a maneira como então se governava a democracia ateniense, pois censurava abertamente o costume de distribuição de cargos públicos para interesses políticos quando considerava que somente sábios e prudentes poderiam ocupa-los, os únicos aptos a governar a República.

Sócrates não deixou suas doutrinas escritas e só as conhecemos de fontes da época entre as quais se sobressaem as obras de Jenofonte, principalmente os Memoráveis e as de Platão. Também se encontram algumas referências em Aristóteles. Porém não se podem tirar informações precisas de Sócrates pois Jenofonte, que principalmente escreve sobre a doutrina ética, não é comparável em seu talento com Sócrates. Platão que melhor expõe as idéias dialéticas e metafísicas, as desenvolve com freqüência à sua maneira e mescla com elas suas próprias idéias.

… continua…

Ascetismo prático

06/02/2009

Ascetismo prático

Enquanto Protágoras e Górgias, ao ensinar o ascetismo puramente teórico, haviam deixado intactos todos os fundamentos da vida moral e social, outros sofistas aplicaram o ascetismo e relativismo à vida prática.

Hípias: ensinou que a lei é o tirano dos homens.

Polo e Trasímaco: ensinaram que nada é justo, senão o que é útil ao mais forte.

Calicles: ensinou que a vida boa consiste em que cada um dê satisfação a sua consciência da melhor maneira que consiga.

Não se pode negar a originalidade de muitos pensamentos dos sofistas. Houve entre eles muitos pensadores talentosos e sua influência no ambiente grego foi enorme. Mas toda essa cultura sofista tem um significado mais negativo que positivo para a causa do ascetismo. Sem dúvida também os sofistas impulsionaram o progresso da filosofia. Não só são merecedores de apreço pelo exercício da retórica e o desenvolvimento do método dialético, mas também que sua própria discussão ascética dos resultados do pensamento pré-socrático obrigou os filósofos posteriores a investigações mais profundas.

Toda a filosofia pré-socrática tinha obscuridade em suas expressões. Os sofistas abandonaram a forma poética e expressaram suas idéias em termos mais claros e precisos e, assim, contribuíram para a formação do estilo filosófico. Além disso, com os sofistas a filosofia saiu do estreito recinto das escolas e se divulgou em todo o povo grego. Finalmente não se pode esquecer que os sofistas foram os primeiros a deixar de lado a investigação cosmológica e estudar as questões da teoria do conhecimento, a psicologia e a ética e deram início ao período antropológico da filosofia grega.

Górgias

05/02/2009

Górgias de Leontini (480 a 375 AC) Nascido na Sicília foi para Atenas na qualidade de embaixador. Ensinou a arte da retórica em vários locais. Primeiramente professou a doutrina eleática mas depois assumiu o ascetismo que levou até o extremo em três teses: 1º que nada existe, 2º que ainda que existisse, não poderia ser conhecido e 3º que ainda que existisse e pudesse ser conhecido não poderia ser comunicado aos demais. Górcias, com essas três negações foi muito além de um vulgar ascetismo proclamando um desconcertante niilismo. Mas, “Górgias estaria falando sério?”. Zeller vê nas teses de Górgias somente uma tentativa de levar até o absurdo as possibilidades contidas no eleatismo. Seu sentido seria o seguinte: são tantas as antinomias que se seguem à admissão do ser que o mais lógico é dizer que nada existe.

Protágoras

04/02/2009

Protágoras de Abdera (480 a 410 AC) Protágoras ensinou retórica na Sicília, na Itália e em Atenas e foi tão versado em ciências que alguns o admiravam como um deus por sua sabedoria. Caiu no ascetismo por causa da doutrina de Heráclito sobre o perpétuo fluxo de todas as coisas e sobre o valor somente relativo do conhecimento sensível. Ensinou o ascetismo e o relativismo com estas palavras “Assim como as coisas me parecem, assim elas o são para mim; assim como elas te parecem, assim elas os são para ti pois tu és homem e também o sou”. Há outra frase sua célebre “O homem é a medida de todas as coisas: das que existem, porque são; e das que não existem, porque não são”. Esta doutrina de Protágoras não exibe, contudo, o relativismo universal antropológico, mas o relativismo individualista que aparece manifestada na sentença acima. A maior importância de Protágoras foi por ter sido o primeiro que desenvolveu a doutrina de Heráclito que havia concebido não somente o contínuo fluxo das coisas, e que nós conhecemos algo estável como princípio deste fluxo contínuo, que é o fogo. Protágoras, de outra forma, ensinou que existe somente algo indeterminado que não se pode conhecer, e estabeleceu a impossibilidade de todo conhecimento exato, coisa que Heráclito não havia feito.

Obs.: sugestão de leitura complementar – texto de Ricardo Gonçalves no site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Sofística e sofistas

03/02/2009

A palavra sofista era, antigamente, sinônima de sábio e se aplicava indistintamente para poetas, músicos e filósofos. Mas no século V AC toma uma outra conotação pejorativa e se aplica a um grupo de mestres ambulantes que vão para as cidades gregas ensinando o que eles chamam de “sabedoria” em troca de polpudos honorários. Essa acepção pejorativa da palavra toma mais força com Platão e Aristóteles. “É sofista, disse Platão, aquele que em sua disputa se compromete ao afirmar coisas contraditórias e com suas palavras engana de maneira maravilhosa seus ouvintes”. Aristóteles diz “Sofista é aquele que tira dinheiro da ciência que parece ser e não é”. Ambas definições coincidem em que a ciência dos sofistas é aparente e enganosa, pura inutilidade retórica e malabarismo conceitual no sentido de deslumbrar os ouvintes e sacar destes bons volumes de dinheiro. Platão não deixou de lado uma série de modelos interessantes para contrapor argumentações sofísticas envolvendo os sofistas em um turbilhão de palavras. Os sofistas ensinam o ascetismo e o relativismo tanto teoricamente como praticamente. A seguir veremos mais ao estudarmos Protágoras de Abdera e Górgias de Leontini.

Nascimento da Filosofia clássica

02/02/2009

Nascimento da filosofia clássica – período lógico-eurístico

Ao final da etapa pré-socrática se inicia na filosofia grega uma época de cansaço e decadência intelectual caracterizada pelo ascetismo dos sofistas. A semente do ascetismo estava já latente nos eleatas e em Demócrito. A antinomia Heráclito-Parmênides com as soluções insuficientes que lhe deram os atomistas, acabou por levar os espíritos à duvida. Soma-se à esse momento as condições sócio-políticas da época. A vitória contra os persas produziu uma grande prosperidade em todas as ordens. Ao florescimento literário e artístico do século de Péricles se une um grande desejo de saber e divulgação da ciência por todas as classes da sociedade. Mas esta mesma difusão do saber científico acabou em dano à própria ciência que se tornou mais utilitária e superficial. A constituição democrática da República ateniense estimulou os jovens a cultivar a arte de falar e persuadir, com vistas a conquistar cargos públicos. Desta maneira o estudo sério da filosofia e das ciências foi substituído pelo cultivo da arte singular de defender as próprias opiniões e, com dizia Protágoras, de fazer forte o discurso débil. Com isto foi deixado de lado a investigação da verdade e se busca somente triunfar uma tese qualquer. Logo os sofistas se encarregaram de difundir que não existe verdade objetiva e que tudo pode ser provado ou refutado.

Neste momento Sócrates se lança contra esse ascetismo dos sofistas com sua metodologia científica. Sócrates foi o mais terrível adversário dos sofistas. Mesclado como eles, entre os jovens, e usando suas próprias técnicas pedagógicas, orientou o pensamento grego para o conhecimento exato dos conceitos das coisas e as virtudes morais. Os pré-socráticos ficam já muito distantes dessas atualidades. O ascetismo dos sofistas foi superado. E o terreno está preparado para a grande floração do platonismo.

Formação da filosofia clássica

01/02/2009

Formação da filosofia clássica – período de evolução ou antropológico

1 – Introdução

Podemos dividir o caráter desse período em: 1º Convergem para Atenas muitas doutrinas filosóficas diversas porque muitos filósofos se mudam para lá e assim seus pensamentos não só são conhecidos como uns estimulam os outros e acrescentam suas investigações filosóficas; 2º O fluxo dos sofistas provoca uma reação contrária e assim aparecem vários filósofos que trabalham com todas suas forças para defender e provar cada vez mais profundamente o valor objetivo tanto do conhecimento como da ordem moral; 3º Todas essas correntes os obrigam a tratar do problema antropológico; 4º A filosofia não deixa de ser dogmática porque não se põe em dúvida a aptidão e atitude da mente para conhecer a verdade; 5º São propostas as questões fundamentais da filosofia; a investigação é mais aprofundada e aguda; a exploração da doutrina é feita de forma mais perfeita, porém poético-literária por Platão e mais científica, metódica e estritamente racional com Aristóteles. As obras destes filósofos constituem um exemplar clássico para a posteridade e por essa razão se diz que este período é o ponto culminante da filosofia antiga; 6º Pode-se afirmar que o objeto principal da filosofia deste período é o homem, que o método predominante é a observação psicológica e a reflexão racional, e que este período é da perfeição e da maturidade.

2 – Divisão

Em quatro capítulos. O primeiro sobre o nascimento da filosofia clássica na rivalidade socrática-sofística (1). O segundo sobre seu pleno desenvolvimento pelas obras de Platão e Aristóteles. O terceiro sua decadência nas escolas estóicas e epícuras. No quarto e último sua dissolução com o ascetismo (2) e ecletismo (3).

Distinguem-se, então, o grande período central da filosofia grega em quatro períodos: 1º período lógico-eurístico, 2º período sistemático, 3º período ético e 4º período ascético.

(1) Sofisma: argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. (1.a) Sofística: FIL na Grécia dos séculos V e IV AC, fenômeno cultural de implicações filosóficas, e especialmente retóricas, caracterizado pelos ensinamentos e doutrinas dos diversos mestres da eloqüência denominados sofistas (Protágoras de Abdera, Górgias de Leontinos, etc), que, além de ministrarem aulas de oratória e cultura geral para os cidadãos gregos, interferiam em acirrados debates filosóficos, religiosos e políticos da época.

(2) Ascetismo: FIL REL doutrina de pensamento ou de fé que considera a ascese, isto é, a disciplina e autocontrole estritos do corpo e do espírito, um caminho imprescindível em direção a Deus, à verdade ou à virtude.

(3) Ecletismo: FIL diretriz teórica originada na Antiguidade grega, e retomada ocasionalmente na história do pensamento, que se caracteriza pela justaposição de teses e argumentos oriundos de doutrinas filosóficas diversas, formando uma visão de mundo pluralista e multifacetada.

Obs.: todas as definições são extraídas do dicionário Houaiss.

Livro III – As novas cosmologias dos atomistas – Resumo

01/02/2009

Livro III – As novas cosmologias dos atomistas – Resumo
(495 a 370 AC)

1 – Pluralismo eclético: Se professa um mecanicismo incompleto. Tenta explicar o mundo por elementos qualitativamente diversos.

1.a – Empédocles (495 a 435 AC): Quatro elementos (água, ar, fogo e terra); o princípio do movimento reside no amor e ódio; as almas e deuses resultam da mescla dos elementos.
1.b – Anaxágoras (500 a 428 AC): Infinitos elementos; princípio da mudaças é o Nous, cuja existência se prova pelo movimento e ordem cósmica.

2 – Doutrina atomista: Mecanicismo puro; número infinito de elementos (átomos) quantitativamente diferentes.

2.a – Leucipo
2.b – Demócrito (460 a 370 AC): Número infinito de átomos; os princípios do movimento são o peso como causa eficiente e o vazio como condição; evolução mecânica do cosmos; conhecimento por meio de imagens.

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas – Resumo

31/01/2009

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas
(550 a 450 AC)

1 – Explicação dinâmica: Os princípios do movimento são intrínsecos as coisas; existência de elementos qualitativamente diferentes.

1.a Heráclito de Éfeso (535 a 465 AC): O princípio é o fogo, vivo, inteligente e divino (Logos); panta rhei tudo corre, tudo flui- ; polemos pater panton – o conflito é o pai de todas as coisas.

2 – Explicação estática e unitária: Princípio meramente formal; racionalismo extremo; monismo abstrato:

2.a – Xenófanes (570 a 480 AC): o teólogo da escola; ensina um monismo incompleto porque admite algum devir e multiplicidade e imutabilidade de Deus. Rechaça a transmigração das almas.
2.b – Parmênides (540 AC): o metafísico da escola; ensina um monismo rigoroso pois nega todo devir e multiplicidade; formula o princípio do racionalismo – ser e pensar é o mesmo.
2.c – Zenão (520 AC): o dialético da escola; estabelece as aporias dialéticas – dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica; Paradoxos de Zenão.

Livro I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos – Resumo

30/01/2009

Livro I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos
(600 a 500 AC)

1 – Empirismo físico moderado dos jônicos: Os filósofos buscam o princípio material e concreto do que são constituídas as coisas. Se inclinam a um empirismo moderado buscando a causa material em algo imediatamente percebido pelos sentidos. Admitem a multiplicidade dos seres – pluralismo – mas não fazem distinção entre matéria e espírito (hilozoísmo).

1.a – Tales de Mileto (624 a 562 AC): um princípio concreto – a água.
1.b – Anaximandro (610 a 647 AC): um princípio indeterminado – o ápeiron
1.c – Anaxímenes (588 a 524 AC): um princípio vivo e sem limites – o ar
1.d – Diógenes (século V): o ar dotado de razão

2 – Racionalismo moderado dos pitagóricos: Não buscam o que constitui as coisas mas sim o que são elas em si. Realizam uma abstração matemática. Estabelecem um princípio predominantemente formal, concreto-abstrato: o número.

2.a – Pitágoras (580 a 500 AC): 1 – Metafísica: O número é o princípio constitutivo das coisas. O número par representa o infinito, o impar o finito. Infinito e finito se unem pela harmonia. O universo é o cosmos. 2 – Misticismo religioso: Os astros são deuses, o maior dos quais habita em forma de fogo no centro da Terra. A alma divina e imortal provem deste fogo do centro da Terra, mas em castigo de uma culpa original é unida ao corpo. A virtude é uma harmonia entre as partes sensitiva e racional. Admitem a reencarnação e a metempsicosis.
2.b – Escola pitagórica: Filolao ensina a rotação da Terra em torno do Sol. Hicetas ensina a rotação da Terra ao redor do seu eixo.

FILOSOFIA ANTIGA – Índice dos assuntos tratados nestas duas semanas

30/01/2009

Preparação e primeiros passos da Filosofia Perene entre os antigos
(700 AC – 600 DC)

Primeiro período: de formação, pré-socrático ou cosmológico
(700-450 AC)

I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos
I.1 – Empirismo físico moderado dos jônicos
I.2 – Racionalismo formal dos pitagóricos

II – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas
II.1 – Interpretação dinâmica: Heráclito
II.2 – Explicação estática e unitária: Parmênides

III – As novas cosmologias dos atomistas
III.1 – Pluralismo eclético de Empédocles e Anaxágoras
III.2 – A doutrina atomista de Demócrito

Obs.: a seguir um resumo de cada um destes livros em três novos posts. O material serve de síntese e consolidação do estudo até agora.

Capítulo 3 – Demócrito – segunda parte

29/01/2009

Demócrito (470 AC) -… continuação

Demócrito estende também seu materialismo ao tema do homem. A alma não é mais que um conjunto de átomos mais sutis e as sensações se devem ao impacto dos átomos externos nos átomos da alma, sendo os órgãos dos sentidos (visão, audição etc) as passagens (poros) através das quais esses átomos são introduzidos. Daí decorre também sua afirmação que os sentidos são enganosos, as coisas que percebemos não são exatamente como elas são e que as conhecemos somente superficialmente porque há interferências nesse caminho da percepção. A última conclusão desta teoria do conhecimento é a dificuldade de se alcançar a verdade que, segundo Demócrito, se esconde num abismo:

“nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou lhe opõem resistência”

“a verdade jaz num abismo”

Demócrito foi um grande pensador. Seu sistema está cheio de instituições geniais recentemente aprofundadas pela ciência e pensamento modernos. Ressalta-se seu atomismo, sua teoria das qualidades primárias e secundárias da matéria, sua dissociação do mundo sensível e do mundo  inteligível, a física atômica, o subjetivismo de Locke, as modernas criteriologias e o fenomenismo de Kant.

Por se contrapor ao espiritualismo de Anaxágoras, Demócrito é considerado o primeiro ateu formal e seu sistema o primeiro ensaio do materialismo com pretensões científicas.

Sugestão de leitura: Mundo dos Filósofos com texto de Rosana Madjarof.

Capítulo 3 – Demócrito – primeira parte.

28/01/2009

Demócrito (470 AC)

O último filósofo pré-socrático nasceu em Abdera de Tracia pelo ano de 470 AC e foi discípulo de Leucipo (1) de quem prosseguiu e aperfeiçoou as idéias atomistas. Demócrito desenvolveu um atomismo quantitativo. Seu ponto de partida é como o de seus antecessores, o princípio eleático de que nenhuma realidade pode ser produzida nem pode perecer. A partir desse ponto pretende explicar as mudanças e a multiplicidade dos seres por meio dos átomos eternos e imutáveis. Os últimos elementos dos seres são o cheio e o vazio. O cheio, o sólido, é o ser, que se identifica com os corpúsculos ou átomos. O vazio, o não-ser, nada mais é que o espaço vazio interposto entre os diferentes átomos.

Os átomos são infinitos, eternos, invisíveis, qualitativamente semelhantes e quantitativamente indivisíveis, de onde vem o próprio nome: átomo (2). Diferem na forma (ou figura), coordenação e posição. A estas três diversidades soma-se uma nova, a diferença de magnitude e de peso. Com os átomos qualitativamente iguais e imutáveis, Demócrito explica as mudanças e diversidade das coisas por mera combinação mecânica. Introduz como causa eficiente das combinações o movimento. Este é eterno, como são os átomos, e produzido em virtude da gravidade, que os antigos não entendiam como atração universal, mas a propriedade dos corpos de moverem-se para baixo e caírem quando sem obstáculos, no vazio. E essa caída é proporcional ao peso das coisas. Aplicando todos estes elementos Demócrito explica a formação do cosmos. Os átomos começam sua caída no infinito espaço vazio desde a eternidade. Como sua velocidade é diferente por causa dos diferentes pesos, os átomos mais pesados se precipitam sobre os mais leves (caem mais rápido que estes) e formam aglomerações, remoinhos de átomos com os quais o movimento retilíneo primitivo se converte em circular, dando origem, deste modo, aos diferentes sistemas cósmicos. Estes sistemas são também infinitos, como os átomos e os espaços vazios.

(Fim da primeira parte… continua no próximo post).

(1) Leucipo – encontrei pouca coisa sobre Leucipo. No livro base não há outra referência além desta até o momento. Sugiro olhar o pouco que existe na Wikipédia.

(2) Átomo – FIL para os pensadores gregos Leucipo e Demócrito (460 a 370 AC), cada uma das partículas minúsculas, eternas e indivisíveis, que se combinam e desagregam movidas por forças mecânicas da natureza, determinando desta maneira as características de cada objeto. (Houaiss)

Capítulo 3 – Anaxágoras

27/01/2009

Anaxágoras (500 a 428 AC)

Célebre descobridor do Nous, de quem Aristóteles disse que foi o único sóbrio no meio de uma turba de ébrios, Anaxágoras nasceu em Clazômena na Jônia (antiga Ásia menor, hoje Turquia) por volta de 500 AC. Anaxágoras desenvolve um atomismo qualitativo. Os quatro elementos de Empédocles (água, ar, fogo e terra) se convertem em uma infinidade de elementos qualitativamente diferentes e imutáveis que são como as sementes de todas as coisas. Estes elementos, que Aristóteles chama de homeomerias (1) (ou homeomérias – encontram-se ambas grafias portuguesas), são ilimitados em número e espécie e, ainda que infinitamente pequenos, são divisíveis mais e mais. A partir destes corpúsculos Anaxágoras explica a formação do cosmos, inserindo um princípio novo: o impulso motor e ordenador: a Inteligência (alguns chamam de Razão) ou Nous. A função deste Nous anaxagórico é dupla: por em ação a massa inerte dos elementos e ordenar o conjunto do universo. Então, o Nous é a causa do movimento e da ordem cósmicas. Anaxágoras não pretendeu chegar até o final, seu Nous se contenta em dar o impulso inicial e, depois, a maneira de Deus e dos deístas, abandona o mundo a si mesmo, a sua própria sorte.

Não é claro também o pensamento de Anaxágoras acerca da natureza imaterial do Nous, pois se de um lado o distingue das homeomerias, de outro o considera como a forma mais tênue das coisas. A solução para esta contradição parece ser a seguinte: Anaxágoras fazia clara distinção entre o nous e as homeomerias que lhe devem o impulso ordenador, mas, por carecer de uma idéia clara sobre a diferença essencial do corpo e do espírito, não supôs liberar seu incipiente espiritualismo de toda influência sobre a matéria. A completa elaboração de um conceito tão difícil como o do espírito era trabalho tão grande e delicado que não poderia ser realizado por um só homem.

O grande mérito de Anaxágoras é ter sido o descobridor do Nous e o primeiro a introduzir a idéia de uma Inteligência transcendente como última explicação da ordem e teologia do cosmos.

(1) Homeomeria: FIL no pensamento do filósofo Anaxágoras (499-428 a.C.), qualquer porção, pequena ou grande, do mundo material que, embora contenha necessariamente todas as múltiplas e contraditórias qualidades encontráveis no resto do universo, pode ser definida e caracterizada por uma qualidade preponderante ou hegemônica. (dic. Houaiss)

Sugestões de leitura: Webartigos e um texto de Mario Ferreira dos Santos no portal Philosophia Perennis