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Capítulo 2, artigo 1 – Heráclito

21/01/2009

Heráclito

Chamado de “o escuro” por causa da obscuridade de um poema filosófico(*), desenvolveu sua filosofia em Éfeso no ano 500 AC. Filho de família nobre, cedeu a seu irmão a dignidade sacerdotal, hereditária em sua linhagem, e renunciou a toda atuação na vida pública. Recebeu também o apelido de “filósofo chorão” pela gravidade hierática (1) de suas sentenças e, talvez, a seriedade sombria de seu caráter.

Heráclito é o filósofo do devir. A fórmula clássica de seu pensamento foi reconhecida por Aristóteles. É célebre também pela frase: “Não pode banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. Mas a concepção heraclicista do devir universal está longe do moderno à época que propunha um movimento sem sujeito que se mova. Heráclito estabelece como princípio do devir o fogo. Tudo procede desse fogo eternamente vivo e tudo deve voltar ao mesmo fogo para surgir de novo em um processo circular de nascimento e destruição. E se o mundo é devir e o princípio do devir é o fogo em que tudo coincide, o todo é único, o Uno. Mas essa unidade brota da diversidade, da tensão dos opostos. A harmonia do universo resulta da coincidência dos distintos e o nascimento e conservação dos seres se devem a um conflito de contrários. Heráclito concebe esse fogo que tudo unifica com inteligência e divindade: o logos (2). Espírito e razão são inseparavelmente contidos em tudo e tudo se faz conforme a razão, dando aos seres harmonia em suas diferenças e regendo o universo segundo a lei da ordem. A alma do homem não é mais que uma centelha desse fogo divino, a qual, como todas as coisas, há de transformar-se e voltar, ressurgir.

O progresso de Heráclito é claro. Ele introduz na filosofia duas idéias tão importantes como o devir e o logos, que estimularam mais adiante o pensamento grego. Seu erro conceitual consiste em estabelecer o devir como essência das coisas. Com esse erro nega a própria característica do logos que é a possibilidade de uma imagem científica do Universo.

(1) Hierático: relativo às coisas sagradas ou religiosas.
(2) Logos: Para Heráclito de Éfeso, conjunto harmônico de leis, regularidades e conexões que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica onipresente que se plenifica no pensamento humano (dicionário Houaiss)

(*) procurar o poema –> pendência

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Capítulo 2 – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas

21/01/2009

A antinomia (1) ser-devir (2) em Heráclito e os eleatas (3)

O pensamento pré-socrático, impulsionado pelo problema cosmológico da mudança, foi acentuado até agora pelos aspectos do ser.

Os jônicos se deram conta que toda mudança supõe alguma coisa fixa e, em busca dessa misteriosa realidade, encontram seu príncípio: a matéria.

Os pitagóricos advertem logo que um princípio material não pode esgotar o ser das coisas. Há nelas algo mais, algo que é próprio e peculiar de cada uma e que as distingue das demais. E, também em busca desse algo, encontram seu princípio formal: o número.

Heráclito com visão mais profunda vai fixar-se na mudança das coisas e diz: a essência das coisas é o devir. Coloca-se, então, um novo problema, que ressaltado na posição contraditória dos eleatas, vai orientar toda a filosofia grega até Aristóteles.

Os eleatas na realidade se instalaram do outro lado do campo de visão do heraclitismo e, destacando a imagem estática do mundo que postula nossa razão, afirmam: as coisas são o ser, até o ponto que é impossível o devir. Assim nasce o tema central do pensamento pré-socrático que se chama de antinomia Heráclito-Parmênides.

(1) Antinomia: na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo ceticismo, tal como o Kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites cognitivos ou as contradições existentes ao intelecto humano. (dicionário Houaiss)
(2) Devir: 1 vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir-a-ser (dicionário Houaiss)
(3) Eleata: relativo a Eléia, cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), ou o que é seu natural, ou habitante; eleático.