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Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas – Resumo

31/01/2009

Livro II – A antinomia ser-devir de Heráclito e os eleatas
(550 a 450 AC)

1 – Explicação dinâmica: Os princípios do movimento são intrínsecos as coisas; existência de elementos qualitativamente diferentes.

1.a Heráclito de Éfeso (535 a 465 AC): O princípio é o fogo, vivo, inteligente e divino (Logos); panta rhei tudo corre, tudo flui- ; polemos pater panton – o conflito é o pai de todas as coisas.

2 – Explicação estática e unitária: Princípio meramente formal; racionalismo extremo; monismo abstrato:

2.a – Xenófanes (570 a 480 AC): o teólogo da escola; ensina um monismo incompleto porque admite algum devir e multiplicidade e imutabilidade de Deus. Rechaça a transmigração das almas.
2.b – Parmênides (540 AC): o metafísico da escola; ensina um monismo rigoroso pois nega todo devir e multiplicidade; formula o princípio do racionalismo – ser e pensar é o mesmo.
2.c – Zenão (520 AC): o dialético da escola; estabelece as aporias dialéticas – dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica; Paradoxos de Zenão.

Livro I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos – Resumo

30/01/2009

Livro I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos
(600 a 500 AC)

1 – Empirismo físico moderado dos jônicos: Os filósofos buscam o princípio material e concreto do que são constituídas as coisas. Se inclinam a um empirismo moderado buscando a causa material em algo imediatamente percebido pelos sentidos. Admitem a multiplicidade dos seres – pluralismo – mas não fazem distinção entre matéria e espírito (hilozoísmo).

1.a – Tales de Mileto (624 a 562 AC): um princípio concreto – a água.
1.b – Anaximandro (610 a 647 AC): um princípio indeterminado – o ápeiron
1.c – Anaxímenes (588 a 524 AC): um princípio vivo e sem limites – o ar
1.d – Diógenes (século V): o ar dotado de razão

2 – Racionalismo moderado dos pitagóricos: Não buscam o que constitui as coisas mas sim o que são elas em si. Realizam uma abstração matemática. Estabelecem um princípio predominantemente formal, concreto-abstrato: o número.

2.a – Pitágoras (580 a 500 AC): 1 – Metafísica: O número é o princípio constitutivo das coisas. O número par representa o infinito, o impar o finito. Infinito e finito se unem pela harmonia. O universo é o cosmos. 2 – Misticismo religioso: Os astros são deuses, o maior dos quais habita em forma de fogo no centro da Terra. A alma divina e imortal provem deste fogo do centro da Terra, mas em castigo de uma culpa original é unida ao corpo. A virtude é uma harmonia entre as partes sensitiva e racional. Admitem a reencarnação e a metempsicosis.
2.b – Escola pitagórica: Filolao ensina a rotação da Terra em torno do Sol. Hicetas ensina a rotação da Terra ao redor do seu eixo.

FILOSOFIA ANTIGA – Índice dos assuntos tratados nestas duas semanas

30/01/2009

Preparação e primeiros passos da Filosofia Perene entre os antigos
(700 AC – 600 DC)

Primeiro período: de formação, pré-socrático ou cosmológico
(700-450 AC)

I – As primeiras cosmologias dos jônicos e pitagóricos
I.1 – Empirismo físico moderado dos jônicos
I.2 – Racionalismo formal dos pitagóricos

II – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas
II.1 – Interpretação dinâmica: Heráclito
II.2 – Explicação estática e unitária: Parmênides

III – As novas cosmologias dos atomistas
III.1 – Pluralismo eclético de Empédocles e Anaxágoras
III.2 – A doutrina atomista de Demócrito

Obs.: a seguir um resumo de cada um destes livros em três novos posts. O material serve de síntese e consolidação do estudo até agora.

Capítulo 3 – Demócrito – segunda parte

29/01/2009

Demócrito (470 AC) -… continuação

Demócrito estende também seu materialismo ao tema do homem. A alma não é mais que um conjunto de átomos mais sutis e as sensações se devem ao impacto dos átomos externos nos átomos da alma, sendo os órgãos dos sentidos (visão, audição etc) as passagens (poros) através das quais esses átomos são introduzidos. Daí decorre também sua afirmação que os sentidos são enganosos, as coisas que percebemos não são exatamente como elas são e que as conhecemos somente superficialmente porque há interferências nesse caminho da percepção. A última conclusão desta teoria do conhecimento é a dificuldade de se alcançar a verdade que, segundo Demócrito, se esconde num abismo:

“nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou lhe opõem resistência”

“a verdade jaz num abismo”

Demócrito foi um grande pensador. Seu sistema está cheio de instituições geniais recentemente aprofundadas pela ciência e pensamento modernos. Ressalta-se seu atomismo, sua teoria das qualidades primárias e secundárias da matéria, sua dissociação do mundo sensível e do mundo  inteligível, a física atômica, o subjetivismo de Locke, as modernas criteriologias e o fenomenismo de Kant.

Por se contrapor ao espiritualismo de Anaxágoras, Demócrito é considerado o primeiro ateu formal e seu sistema o primeiro ensaio do materialismo com pretensões científicas.

Sugestão de leitura: Mundo dos Filósofos com texto de Rosana Madjarof.

Capítulo 3 – Demócrito – primeira parte.

28/01/2009

Demócrito (470 AC)

O último filósofo pré-socrático nasceu em Abdera de Tracia pelo ano de 470 AC e foi discípulo de Leucipo (1) de quem prosseguiu e aperfeiçoou as idéias atomistas. Demócrito desenvolveu um atomismo quantitativo. Seu ponto de partida é como o de seus antecessores, o princípio eleático de que nenhuma realidade pode ser produzida nem pode perecer. A partir desse ponto pretende explicar as mudanças e a multiplicidade dos seres por meio dos átomos eternos e imutáveis. Os últimos elementos dos seres são o cheio e o vazio. O cheio, o sólido, é o ser, que se identifica com os corpúsculos ou átomos. O vazio, o não-ser, nada mais é que o espaço vazio interposto entre os diferentes átomos.

Os átomos são infinitos, eternos, invisíveis, qualitativamente semelhantes e quantitativamente indivisíveis, de onde vem o próprio nome: átomo (2). Diferem na forma (ou figura), coordenação e posição. A estas três diversidades soma-se uma nova, a diferença de magnitude e de peso. Com os átomos qualitativamente iguais e imutáveis, Demócrito explica as mudanças e diversidade das coisas por mera combinação mecânica. Introduz como causa eficiente das combinações o movimento. Este é eterno, como são os átomos, e produzido em virtude da gravidade, que os antigos não entendiam como atração universal, mas a propriedade dos corpos de moverem-se para baixo e caírem quando sem obstáculos, no vazio. E essa caída é proporcional ao peso das coisas. Aplicando todos estes elementos Demócrito explica a formação do cosmos. Os átomos começam sua caída no infinito espaço vazio desde a eternidade. Como sua velocidade é diferente por causa dos diferentes pesos, os átomos mais pesados se precipitam sobre os mais leves (caem mais rápido que estes) e formam aglomerações, remoinhos de átomos com os quais o movimento retilíneo primitivo se converte em circular, dando origem, deste modo, aos diferentes sistemas cósmicos. Estes sistemas são também infinitos, como os átomos e os espaços vazios.

(Fim da primeira parte… continua no próximo post).

(1) Leucipo – encontrei pouca coisa sobre Leucipo. No livro base não há outra referência além desta até o momento. Sugiro olhar o pouco que existe na Wikipédia.

(2) Átomo – FIL para os pensadores gregos Leucipo e Demócrito (460 a 370 AC), cada uma das partículas minúsculas, eternas e indivisíveis, que se combinam e desagregam movidas por forças mecânicas da natureza, determinando desta maneira as características de cada objeto. (Houaiss)

Capítulo 3 – Anaxágoras

27/01/2009

Anaxágoras (500 a 428 AC)

Célebre descobridor do Nous, de quem Aristóteles disse que foi o único sóbrio no meio de uma turba de ébrios, Anaxágoras nasceu em Clazômena na Jônia (antiga Ásia menor, hoje Turquia) por volta de 500 AC. Anaxágoras desenvolve um atomismo qualitativo. Os quatro elementos de Empédocles (água, ar, fogo e terra) se convertem em uma infinidade de elementos qualitativamente diferentes e imutáveis que são como as sementes de todas as coisas. Estes elementos, que Aristóteles chama de homeomerias (1) (ou homeomérias – encontram-se ambas grafias portuguesas), são ilimitados em número e espécie e, ainda que infinitamente pequenos, são divisíveis mais e mais. A partir destes corpúsculos Anaxágoras explica a formação do cosmos, inserindo um princípio novo: o impulso motor e ordenador: a Inteligência (alguns chamam de Razão) ou Nous. A função deste Nous anaxagórico é dupla: por em ação a massa inerte dos elementos e ordenar o conjunto do universo. Então, o Nous é a causa do movimento e da ordem cósmicas. Anaxágoras não pretendeu chegar até o final, seu Nous se contenta em dar o impulso inicial e, depois, a maneira de Deus e dos deístas, abandona o mundo a si mesmo, a sua própria sorte.

Não é claro também o pensamento de Anaxágoras acerca da natureza imaterial do Nous, pois se de um lado o distingue das homeomerias, de outro o considera como a forma mais tênue das coisas. A solução para esta contradição parece ser a seguinte: Anaxágoras fazia clara distinção entre o nous e as homeomerias que lhe devem o impulso ordenador, mas, por carecer de uma idéia clara sobre a diferença essencial do corpo e do espírito, não supôs liberar seu incipiente espiritualismo de toda influência sobre a matéria. A completa elaboração de um conceito tão difícil como o do espírito era trabalho tão grande e delicado que não poderia ser realizado por um só homem.

O grande mérito de Anaxágoras é ter sido o descobridor do Nous e o primeiro a introduzir a idéia de uma Inteligência transcendente como última explicação da ordem e teologia do cosmos.

(1) Homeomeria: FIL no pensamento do filósofo Anaxágoras (499-428 a.C.), qualquer porção, pequena ou grande, do mundo material que, embora contenha necessariamente todas as múltiplas e contraditórias qualidades encontráveis no resto do universo, pode ser definida e caracterizada por uma qualidade preponderante ou hegemônica. (dic. Houaiss)

Sugestões de leitura: Webartigos e um texto de Mario Ferreira dos Santos no portal Philosophia Perennis

Capítulo 3 – Empédocles

26/01/2009

Empédocles (495 a 455 AC)

Se esforça em conciliar a filosofia eleática com a cotidiana experiência da multiplicidade e da mutação. A filosofia de Empédocles indica que há quatro elementos básicos: a água, o ar, o fogo e a terra, e que destes elementos se fazem todas as substâncias. O princípio ou causa eficiente desta mescla é extrínseco: a amizade e o ódio. Tanto os elementos quanto o princípio ou causa são divinos. Sem dúvida é possível que debaixo desta nomenclatura se entendam as forças de atração e repulsão inerentes à matéria. Também as almas humanas nascem da mescla dos elementos e até os deuses, sendo que aqui Empédocles não sugere isto de maneira constante.

Ainda que estas doutrinas sejam muito imperfeitas Empédocles foi o primeiro a estabelecer uma idéia clara do elemento. Também foi o primeiro a distinguir os seres vivos e os não vivos e, também, a causa material e a eficiente.

Obs.: como fiquei insatisfeito com a exposição de Klimke e Colomer no livro base deste trabalho, adiciono outro trecho que acredito somar no entendimento de Empédocles. É do site Só Filosofia indicado abaixo onde sugiro as leituras complementares e do autor Arildo Luiz Marconatto

“Empédocles pensava que dos poros das coisas saíam emanações que atingem os nossos órgãos de sentido. Assim as partes que são semelhantes nos nossos órgãos e nas coisas vão se reconhecer. O que for fogo em nossos sentidos vai reconhecer as emanações que vem do fogo, o que for regido pela água vai reconhecer as emanações que vem da água. Somente com nossa visão acontece o contrário, nela as emanações partem dos olhos mas da mesma forma essas emanações vão reconhecer nas coisas o que lhe for semelhante.Para Empédocles nosso conhecimento está no coração e o veículo que transporta esse conhecimento é o sangue. O conhecimento assim não acontece somente no homem. Os conhecimentos que o homem pode ter são também limitados. Ele somente consegue perceber uma pequena parte de sua vida, as coisas que por acaso ele tem a possibilidade de se relacionar. Por isso ele não pode desperdiçar nenhuma dessas possibilidades. Deve aproveitar e utilizar todos os seus sentidos e através do intelecto perceber as evidências nas coisas que conhece.Empédocles sustenta ainda uma teoria sobre a evolução dos seres vivos. Para ele no princípio havia numerosas partes de homens e animais – pernas, olhos, orelhas – que estavam distribuídas desordenadamente. Através do amor essas partes se juntavam aleatoriamente formando criaturas disformes que eram inviáveis para sobreviver e pereciam. As espécies que formavam uma boa combinação sobreviviam.

Sentenças:
– O sol, uma seta aguda. A lua do olho claro. O mar, suor da terra. A noite solitária e cega.
– Os iguais se reconhecem.
– Sobrevive o que for mais capacitado
– O mundo evoluiu da água por meios naturais.”

Leituras recomendadas: Fórum Filosofia e Só Filosofia

Capítulo 3 – As novas cosmologias dos atomistas

25/01/2009

As novas cosmologias dos atomistas

A antinomia Heráclito-Parmênides havia encerrado o pensamento pré-socrático num labirinto sem saída. Por um lado os eleatas afirmavam que o ser não pode mudar e que é único. Por outro lado a experiência favorecia Heráclito ao mostrar a existência de muitos seres que certamente seriam mutáveis. Prisioneiros desse problema os últimos pré-socráticos buscaram uma solução que os permitisse escapar. E a solução que encontraram foi esta: O verdadeiro ser nem pode mudar, nem pode ser produzido de novo e nem deixar de ser. E aqui os eleatas têm razão. Mas isto não quer dizer que haja um só ser. Ao contrário, existem infinitos seres, e eles são imutáveis, que ao combinar-se entre si de um modo puramente mecânico produzem a realidade mutável do Universo. Estes seres minúsculos, no conceito parmenidiano de ser, são os átomos. Os últimos pré-socráticos são seus inventores e chamados de atomistas.

Os atomistas abandonam a consideração hilozoística (1) da matéria e se vêem obrigados a buscar uma causa eficiente das coisas e de suas mudanças. Empédocles colocou esta causa nas forças consideradas de uma maneira antropomórfica (2), Anaxágoras no entendimento divino e Demócrito no movimento eterno, como veremos a seguir.

(1) Hilozoismo: doutrina filosófica segundo a qual toda a matéria do universo é viva, sendo o próprio cosmo um organismo material integrado, possuindo características como animação, sensibilidade ou consciência. (Dicionário Houaiss – melhor que as anteriores – revisar as definições passadas)
(2) Antropomorfismo: [2] visão de mundo ou doutrina filosófica que, buscando compreensão da realidade circundante, atribui características e comportamentos típicos da condição humana às formas inanimadas da natureza ou aos seres vivos irracionais. (Dicionário Houaiss)

Obs.: Uma excelente leitura, um texto de Erwin Schrödinger, Nobel de Física de 1953, no site Ciência dos Materiais, da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais

Capítulo 2 – Conclusão sobre a filosofia dos Eleatas

24/01/2009

Conclusão sobre a filosofia dos Eleatas, por Klimke e Colomer (1)

Da filosofia eleata podemos dizer que, em geral, foi uma notável tentativa de impor-se sobre toda realidade por meio da razão. Os filósofos eleatas empreenderam esta tentativa de forma exagerada, mas assim plantaram as bases da persuasão, que hoje todos sustentamos firmemente, de que todo o Universo é governado por leis imutáveis.

Outra definição do caráter do Eleatismo, por Filipe Galvão (2)

A escola jónica não aceitaria o devir do mundo, que se manifesta ao nascer, parecer e transformar as coisas, como um facto último e definitivo, porque intentara descobrir, para lá disso, a unidade e a permanência da substância. Não negara, todavia, a realidade do devir. Tal negação é obra da escola eleática que reduz o próprio devir a simples aparência e afirma que só a substância é verdadeiramente. Pela primeira vez, com a escola eleática, a substância se torna por si mesma princípio metafísico: pela primeira vez, é ela definida não como elemento corpóreo ou como número, mas tão-só como substância, como permanência e necessidade do ser enquanto ser. O carácter normativo que a substância revestia na especulação de Anaximandro, que via nela uma lei cósmica de justiça, carácter que fora expresso pelos pitagóricos no princípio de que o número é o modelo das coisas, surge assumido como a própria definição da substância por Parménides e pelos seus seguidores. Para eles a substância é o ser que é e deve ser: é o ser na sua unidade e imutabilidade, que faz dele o único objecto do pensamento, o único termo de pesquisa filosófica. O princípio do eleatismo marca uma etapa decisiva na história da filosofia, Ele pressupõe indubitavelmente a pesquisa cosmológica dos jónios e dos pitagóricos, mas subtrai-a ao seu pressuposto naturalista e trá-la pela primeira vez ao plano ontológico em que deveriam enraizar-se os sistemas de Platão e de Aristóteles.

(1) Livro base deste estudo
(2) Do site Forum Filosofia que indico e sugiro inscrição. Vale ressaltar que a cópia é autorizada por Filipe Galvão, a quem agradeço.

Capítulo 2, artigo 2 – Zenão

24/01/2009

Zenão (nascido em 520 AC)

Discípulo de Parmênides defende a mesma doutrina e com suas famosas aporias (1) dialéticas tenta demonstrar que toda multiplicidade e todo movimento são impossíveis. Por isso se chama o dialético da escola eleática. Expões quatro argumentos contra a pluralidade dos corpos e a favor da unidade do Universo e outros quatro contra a mutabilidade dos corpos e contra seus movimentos.

Seu mérito consiste em manifestar com grande agudeza as dificuldades lógicas contidas na multiplicidade, no movimento e na divisibilidade, sem, entretanto, dar propriamente a solução para estas questões.

As antinomias ou paradoxos de Zenão não só foram muito celebradas pelos antigos como Aristóteles que as resolveu depois engenhosamente, como mais adiante, Bayle, Espinosa, Leibnitz, Hegel e Herbart as estudaram profundamente. Ainda que seus argumentos não resolvam o problema da multiplicidade e do movimento, desenvolvem agudamente as dificuldades que envolvem essas questões e assim prepara a invenção do cálculo infinitesimal, obra de Leibnitz e Newton.

Sugestão de leitura: Os paradoxos de Zenão no site da Faculdade de Educação da Universidade de Lisboa.

(1) Aporia: 1 dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica … 4 figura pela qual o orador simula uma hesitação a propósito daquilo que pretende dizer – aparias de Zenão – as formuladas pelo filósofo Zenão de Eléia que tinham por objetivo provar que as idéias de multiplicidade e movimento conduzem o pensamento a impasses e contradições lógicas insuperáveis. (dicionário Houaiss)

Capítulo 2, artigo 2 – Parmênides

23/01/2009

Parmênides (540 AC)

Sucessor e discípulo de Xenófanes, Parmênides é o metafísico da escola eleata. Seu mérito principal consiste no descobrimento do ser. Parmênides inaugura o pensamento que a primeira coisa que se deve dizer da realidade é o que é, que é o ser. O que é esse ser? Antes de tudo ele deve ser. Daí o princípio: o ser é. Este princípio se contrapõe ao seu par: O não-ser, não é. Destes dois princípios deduz todo seu sistema. Em efeito, se só o ser é, deve ser único, pois, se existir algo junto ao ser, só poderia ser o não-ser e o não-ser não é, não existe. Deve também ser imóvel porque o ser que muda não é ser. Finalmente o ser é não-criado já que ao contrário só poderia preceder do não-ser e o não-ser não é. Então o ser é, para Parmênides, uno, imóvel, e não-criado. Ainda que infinito ou eterno, espacialmente é delimitado e finito. Parmênides concebe o ser como uma esfera compacta e contínua cujas partes desde o centro para qualquer direção têm o mesmo peso. Desenvolve o conceito do ser sem fixar-se na experiência, pois ela dirá o contrário. Então, de que parte está a verdade? Na experiência ou na razão? Parmênides não duvida em responder que está na razão. O mundo que nos oferece a experiência é todo de multiplicidade e movimento, é um mundo aparente, que nada tem a ver com a razão, sendo somente alimento dos pensamentos ilusórios dos mortais.

Esta é a arquitetura da antologia parmenidiana. No fundo deste sistema está o princípio do racionalismo exagerado que Parmênides enuncia assim: “a mesma coisa é pensar e ser”. O erro fundamental de Parmênides é considerar o mundo conceitual tão ligado com a verdade que deixa o mundo real reduzido a mera aparência ilusória. Ao mesmo tempo o grande mérito não é só a descoberta do ser, mas também ter desenvolvido de tal forma sua metafísica que só se pode chegar a Deus para que seja verdadeira. Santo Agostinho, séculos depois, reproduz seu mesmo conceito “não foi nem será, porque de uma só vez tudo é”.

Obs.: Há um bom resumo de Parmênides que se encontra na Wikipédia baseado no livro Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da Ciência Grega do autor Miguel Spinelli. Aconselho para quem se interessar em aprofundar o estudo aqui. Há também um resumo mais sintético no site da PUC SP.  Um texto mais completo sobre Parmênides pode ser encontrado na WebArtigos.com escrito por ROSA, Garcia.

Capítulo 2, artigo 2 – Xenófanes

23/01/2009

Xenófanes (570 a 480 AC)

Fundou uma escola em Elea. Seu monismo não é inteiramente rígido, pois não nega todo o devir e admite certa multiplicidade, ao menos relativa. Pode ser chamado de o teólogo da escola eleata porque é o primeiro que ensina a unidade e a imutabilidade de Deus: “Há um só Deus, o supremo entre todos os deuses e os homens”. Desta forma, esta estrita doutrina se baseia num fundamento falso, ou seja, em seu monismo racionalista onde tudo é uno e imutável e que Deus é o próprio mundo. Entretanto, por outro lado, crê que a água e a terra nascem e passam.

Repele a transmigração das almas defendida pelos pitagóricos. Há uma passagem citada onde provoca um pitagórico que pegava um cachorro: “Largue-o, porque é a alma de um homem querido”.

Obs.:  o melhor site que achei sobre Xenófanes está em Portugal, Forum Filosofia, onde também pesquiso e aconselho a inscrição.

Capítulo 2, artigo 2 – Os Eleatas

22/01/2009

Os Eleatas

Em oposição a Heráclito que se fixou na experiência e afirmou que tudo no mundo é o devir, os eleatas, apoiando-se somente na razão, estabelecem que tudo é ser e de uma maneira puramente racionalista identificam a ordem das coisas com a ordem das idéias e vão parar na negação de toda multiplicidade e no monismo estritamente racionalista. Então se o ser é tão somente uno, único e imutável e, com esse mesmo conceito do ser, surge a seguinte questão: Como se explicam as mudanças que vemos nas coisas? Ao resolver esta dificuldade os eleatas incorrem no fenomenismo e, mais ainda, no ilusionismo, pois dizem que as mudanças não existem na realidade, sendo tão somente uma ilusão dos sentidos, que a razão deve corrigir. Decorrem então os princípios supremos do monismo eleático:

1 – O ser é uno, único, imutável

2 – Nenhum ser pode se reproduzir nem perecer, pois, caso contrário, o ser o aumentaria ou diminuiria, o que é impossível.

3 – Como só existe um ser, o mundo e Deus são a mesma coisa. A concepção de Deus é material e hilozoísta (1).

O processo da filosofia eleática é como se segue: Xenófanes mostra um monismo ainda imperfeito e mais teológico; Parmênides, de uma maneira extremamente rígida, a desenvolve produzindo um racionalismo metafísico; Zenão se esforça em defender dialeticamente a doutrina de Parmênides; finalmente Meliso a aplica à ordem física.

(1) hilozoismo – Doutrina metafísica que considera que a materia é animada, sensível e espontânea em atuações e respostas – do site WordReference.com

Capítulo 2, artigo 1 – Heráclito

21/01/2009

Heráclito

Chamado de “o escuro” por causa da obscuridade de um poema filosófico(*), desenvolveu sua filosofia em Éfeso no ano 500 AC. Filho de família nobre, cedeu a seu irmão a dignidade sacerdotal, hereditária em sua linhagem, e renunciou a toda atuação na vida pública. Recebeu também o apelido de “filósofo chorão” pela gravidade hierática (1) de suas sentenças e, talvez, a seriedade sombria de seu caráter.

Heráclito é o filósofo do devir. A fórmula clássica de seu pensamento foi reconhecida por Aristóteles. É célebre também pela frase: “Não pode banhar-te duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. Mas a concepção heraclicista do devir universal está longe do moderno à época que propunha um movimento sem sujeito que se mova. Heráclito estabelece como princípio do devir o fogo. Tudo procede desse fogo eternamente vivo e tudo deve voltar ao mesmo fogo para surgir de novo em um processo circular de nascimento e destruição. E se o mundo é devir e o princípio do devir é o fogo em que tudo coincide, o todo é único, o Uno. Mas essa unidade brota da diversidade, da tensão dos opostos. A harmonia do universo resulta da coincidência dos distintos e o nascimento e conservação dos seres se devem a um conflito de contrários. Heráclito concebe esse fogo que tudo unifica com inteligência e divindade: o logos (2). Espírito e razão são inseparavelmente contidos em tudo e tudo se faz conforme a razão, dando aos seres harmonia em suas diferenças e regendo o universo segundo a lei da ordem. A alma do homem não é mais que uma centelha desse fogo divino, a qual, como todas as coisas, há de transformar-se e voltar, ressurgir.

O progresso de Heráclito é claro. Ele introduz na filosofia duas idéias tão importantes como o devir e o logos, que estimularam mais adiante o pensamento grego. Seu erro conceitual consiste em estabelecer o devir como essência das coisas. Com esse erro nega a própria característica do logos que é a possibilidade de uma imagem científica do Universo.

(1) Hierático: relativo às coisas sagradas ou religiosas.
(2) Logos: Para Heráclito de Éfeso, conjunto harmônico de leis, regularidades e conexões que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica onipresente que se plenifica no pensamento humano (dicionário Houaiss)

(*) procurar o poema –> pendência

Capítulo 2 – A antinomia ser-devir em Heráclito e os eleatas

21/01/2009

A antinomia (1) ser-devir (2) em Heráclito e os eleatas (3)

O pensamento pré-socrático, impulsionado pelo problema cosmológico da mudança, foi acentuado até agora pelos aspectos do ser.

Os jônicos se deram conta que toda mudança supõe alguma coisa fixa e, em busca dessa misteriosa realidade, encontram seu príncípio: a matéria.

Os pitagóricos advertem logo que um princípio material não pode esgotar o ser das coisas. Há nelas algo mais, algo que é próprio e peculiar de cada uma e que as distingue das demais. E, também em busca desse algo, encontram seu princípio formal: o número.

Heráclito com visão mais profunda vai fixar-se na mudança das coisas e diz: a essência das coisas é o devir. Coloca-se, então, um novo problema, que ressaltado na posição contraditória dos eleatas, vai orientar toda a filosofia grega até Aristóteles.

Os eleatas na realidade se instalaram do outro lado do campo de visão do heraclitismo e, destacando a imagem estática do mundo que postula nossa razão, afirmam: as coisas são o ser, até o ponto que é impossível o devir. Assim nasce o tema central do pensamento pré-socrático que se chama de antinomia Heráclito-Parmênides.

(1) Antinomia: na tradição cética ou em doutrinas influenciadas pelo ceticismo, tal como o Kantismo, contradição entre duas proposições filosóficas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas, demonstrando os limites cognitivos ou as contradições existentes ao intelecto humano. (dicionário Houaiss)
(2) Devir: 1 vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir 2 fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes; devenir, vir-a-ser (dicionário Houaiss)
(3) Eleata: relativo a Eléia, cidade grega situada na Itália meridional (Magna Grécia), ou o que é seu natural, ou habitante; eleático.